2 de março de 2018

Resenha » GUACHE - O Que Vem (2018)

Ouvir dois sujeitos brasileiros reproduzindo um post-punk minimalista é imaginar o país sendo coberto por uma névoa densa que deixa todo o território as escuras, pra não dizer claustrofóbico.

Exagerei em dizer todo esse Brasil. Mais precisamente o Rio de Janeiro que fica coberto por essa atmosfera tudo isso graças ao duo carioca GUACHE formado por Luciana Melo e Gil Fortes na estréia da banda com o disco "O Que Vem." O conceito do álbum está inserido num plano noturno onde as notas parecem galgar friamente por uma cidade pintada em preto e branco.



Talvez isso simbolize esses tempos obscuros em que vivemos. Se esta era uma pretensão por trás do registro, a estética do disco consegue refletir bem isso. O que dirá as letras de Mundo Dividido e Cidade Suja! Numa ligeira alusão, a sonoridade do grupo remete muito o que faz o The xx principalmente no primeiro disco da banda e o Nosso Querido Figueiredo.

É como se a mpb assumisse características do post-punk, trip hop e darkwave, por exemplo, numa roupagem gringa, mas com brasilidade. Nada sai do prumo. O trabalho harmonioso do conjunto, guitarra, baixo, synths, bateria eletrônica e vocais confabulam uma melancolia que se perpetua pelo disco de clima frio, seco, paralisante, silencioso conduzido por vozes lânguidas.

"O Que Vem" é um acerto e tanto da GUACHE. Simples, mas profundo e real!


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27 de outubro de 2017

Resenha » Loomer - Deserter (2017)

Aqui está mais um candidato a "Disco do Ano Nacional" no Música Café. "Deserter" é o segundo disco de inéditas da Loomer, banda gaúcha que é atualmente uma das expoentes do shoegaze nacional.

O sucessor de "You Woudn’t Anyway" (2013), "Desert" carrega em seus genes não somente peso e força para causar um impacto maior em cada música, mas também tem sua origem baseada no equilíbrio de suas influências que nos faz saudosistas quando o assunto é shoegaze e décadas atrás.



Lack, que ganhou um vídeo, é um dos destaques do álbum que nos remete a My Bloody Valentine, Dinosaur Jr e Yo La Tengo e faz ótima dobradinha com Miles. Embora certas lembranças estejam associadas a outras bandas, há muito mais que isso. Cada música eleva a moral da banda pouco a pouco destacando virtudes como as aguerridas Then You Go e Personal Illusion e as ácidas I Have To Stay e Stardust.

Se o principal insumo de seu trabalho é o barulho, a Loomer trata de lapidá-lo para deixar ele cada vez mais notável, menos sujeito a falhas, e coeso. Parece um paradoxo pensarmos em harmonia quando o objetivo é destoar fora do senso comum, porém a Loomer torna isso real quando seu trabalho traz uma efusão de ruídos caprichados.

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7 de setembro de 2017

Resenha » Maglore - Todas as Bandeiras (2017)

Está precisando ouvir um disco nacional que cause uma boa impressão logo de cara sem muito invencionismo? O quarto disco da Maglore, "Todas as Bandeiras", pode ser uma boa pedida pra você.

Os baianos entregaram um disco pronto para ser consumido sem obstáculos equilibrando sua brasilidade na veia roqueira tendo o pop como elemento acessível ligando as vertentes e improvisos da banda. Isso sem contar com as letras fáceis de cantar.

As três primeiras faixas, Aquela Força, Todas as Bandeiras e Clonazepam 2mg, já mostram isso logo de cara divertindo a gente. Apesar de termos aqui um disco em boa parte homogêneo, mantendo a mesma pegada, é possível encontrarmos alguns contrastes como a faixa Hoje Eu Vou Sair com guitarras eufóricas distorcendo a linearidade construída até o momento e Quando Chove no Varal trazendo o sossego na melodia e nos vocais.

A Maglore apostou numa fórmula simples de fazer músicas que grudassem com facilidade, porém sem soar algo muito forçado. É assim em Me Deixa Legal, Eu Consegui, Calma e na mais regionalista/dançante de todas, Jogue Tudo Fora. Na última faixa, Valeu, Valeu, a Maglore sugere um "axé roqueiro" com um jogo de guitarras empolgadas.

"Todas as Bandeiras" é um disco satisfatório feito pra muita gente ouvir além do nicho austero independente.

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26 de julho de 2017

Resenha » Vitor Colares - Fotografia de Rachadura (2017)

Vitor Colares é o representante cearense do tal rock triste ou talvez da nova mpb com uma vertente entristecida e "Fotografia de Rachadura" é seu mais novo disco, o segundo lançado esse ano.

Por trás do silêncio pode haver muito barulho pertubando nossa cabeça. Segredos, medos, dores, desejos, revolta. Em "Fotografia de Rachadura", Vitor Colares exprime tudo isso sem nos poupar de nada.

O álbum de oito faixas traz um som ambiente, caseiro, e relatos criados por ele para dar voz as melodias taciturnas que ecoam pela obra. Logo de cara em "memorando", vemos um cantor sentado numa cadeira, com perna cruzada, dedilhando seu violão com olhos fechados expondo seus sentimentos sobretudo honestos.

"tempestades tropicais" é aquela música que te acompanha quando você está no fundo do poço e de repente sons experimentais começam a querer gritar por você. A tentativa de uma reabilitação encontra-se na boa "nictografia" - significa arte de se escrever às escuras ou sem fazer uso da vista - com repeditas menções de "eu te daria tudo...".



Domado pela melancolia, Vitor nos entrega "fugere" - fugir - tal como uma marcha fúnebre conduzida pelo violão e sintetizadores. Tamanha é a tristeza que pode levar a pessoa a loucura, a sair de si, e em "ecdise" o músico pega emprestado o termo, que significa mudança de exosqueleto, para referênciar as mudanças de estado e som que se passa na música. 

Vitor Colares é um sujeito reflexivo. Em "antessala" ele faz uso do recurso spoken word para declamar seus pensamentos. Aqui a libertação está no desabafo. Pra encerrar o disco, "do refluxo" captura sons aleatórios e "epílogo" finaliza com mais citações como se Colares recobrasse a consciência depois de tudo e contasse o que aconteceu.

Para digerir "Fotografia de Rachadura" é necessário imergir na mente de seu autor. É durante esse processo que o disco se torna compreendido e sincero.



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17 de julho de 2017

Resenha » Jovem Palerosi - Ziyou (2017)

É legal quando conseguimos agregar algo novo ao nosso conhecimento de mundo. Nas andanças por aí nos deparamos com um mar de informações e as filtramos para ampliar nossa experiência de causa enquanto vai surgindo novas possibilidades.

O músico Jovem Palerosi parece entender bem esse processo e seu segundo álbum solo, "Ziyou", traz à tona sua vivência no centro da música eletrônica instrumental e suas experiências sensoriais. 

"Ziyou" vem do chinês que significa Liberdade - é também o nome do bairro onde ele mora em São Paulo - e o espírito livre do músico o permite entrar e sair de suas próprias influências de modo a deixar seu disco equilibrado. A cultura oriental em seu trabalho é um segmento forte que percebemos logo de cara em Ni Hao e Moseley Road, porém ela vai se diluindo de modo a ficar mais sutil durante o disco. É como se Palerosi nos levasse da China ao espaço sideral de uma música pra outra tal como em, 798, Auréolas e Chinateawn.

Os sintetizadores sinestésicos criam ambientações intimistas que contribuem para que o ouvinte sinta sua música de forma mais instrospectiva. As três últimas faixas do álbum, Arpegg Dream, Mercúrio 3.1 e Khayyam trazem essa experiência de um jeito mais étero, flutuante.

Um som com um toque exótico, transcendental e curiosamente bom. "Ziyou" saiu pelo selo Tropical Twista Records de São Paulo.



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