3 de abril de 2018

Entrevista: Old Books Room

A Old Books Room é uma banda cearense que está na atividade desde 2011. O grupo é formado por Ricardo Ferreira (voz e guitarra), Reinaldo Ferreira (guitarra), Diego Fidelis (baixo), Davy Nascimento (bateria) e Felipe Portela (sintetizadores).

Os caras ajudam a fomentar a cena independente local entregando uma sonoridade que pincela vários segmentos dentro do rock. O sonhado primeiro disco veio em 2014 com o "Songs About Days". No ano seguinte veio o EP "The Last Angry Boys In Town". Hoje eles estão divulgando o novo EP da banda chamado "Where Do The Wild Dogs Live?" lançado via Dinamite Records.

O Música Café conversou com Reinaldo Ferreira que falou sobre a banda e o novo trabalho deles. Confere aí.



Qual a identidade sonora que a banda criou e vem criando desde então? Reflete o que vocês andam escutando? Falem um pouco sobre as origens do grupo.

Bem, achamos que tudo o que vamos escutando reflete sim em nossa forma de pensar e de trabalhar as músicas, mas sempre de uma forma indireta. Como costumamos falar, é meio complicado definir uma identidade sonora fixa para os nossos trabalhos porque gostamos de explorar novas texturas, mas o que é realmente impressiona na arte de se fazer música é que o nosso público consegue sim identificar o nosso som, por mais diferente que ele possa parecer de acordo com os trabalhos. Somos uma banda de várias influências. Eu, Reinaldo, e meu irmão Ricardo, os principais compositores da banda, fomos quase sempre voltados para o som alternativo dos anos 80, 90, 2000. Escutamos muito Nirvana, Smashing Pumpkins, Slowdive, Ride, o movimento grunge, as bandas anteriores, Sonic Youth, Dinosaur Jr, Pixies, bandas dos anos 2000 como Interpol, Placebo, Foals. Já os outros integrantes sempre flutuaram em outros sons, o Diego, baixista, se liga mais nos sons e bandas psicodélicas, o Davy, baterista, curte um som mais pesado, voltado pro metal, já o Felipe, nosso cara dos synth, gosta mais de jazz e outros estilos mais. Esse conjunto de influências é fundamental pra fazer o nosso som ser o que é hoje.

A banda já lançou o primeiro disco cheio em 2014, "Songs About Days", e acaba de lançar um novo EP, "Where Do The Wild Dogs Live?". Porque não um segundo álbum?

Na verdade, este segundo EP, "Where Do The Wild Dogs Live?", já era um projeto antigo que refletia o momento em que vivíamos lá para o final de 2015 e início de 2016, que só foi concluído e lançado neste ano de 2018. Refletia uma fase de experimentação do grupo, não qual estávamos em processo de mudança, sem baterista, e trabalhávamos um formato mais "eletrônico", e foi um momento criativamente muito interessante pra banda. Não podíamos deixá-lo de lado, resolvemos então lançar algumas músicas neste formato, que difere bastante do nosso formato "ao vivo" por exemplo. Já estamos em fase de pré-produção do que virá a ser sim o nosso segundo álbum. Quem vai ao nossos shows já pode conferir algumas músicas que estarão neste novo trabalho.



Por falar no novo EP senti que vocês quiseram emplacar características diferentes em cada música o que é legal para um ep de três faixas, pois confere mais detalhes ao pequeno registro. Como se deu o processo de criação e o porque desse nome "Where Do The Wild Dogs Live?"?

Por se tratar realmente de um registro pequeno, com apenas três músicas, resolvemos apresentar várias características voltadas pra este novo formato que apresentamos neste EP. Queríamos que ele soasse mais "leve", que refletisse outras características não tão exploradas nos primeiros trabalhos, que mesmo assim, somasse de forma poderosa em nossa pequena discografia. Todas as músicas foram compostas pelo Ricardo, Saving Smiles por exemplo, é uma música que já tem mais de 10 anos. Sempre pensamos em trabalhar com os samples de bateria eletrônica para este projeto, porque esse é o conceito chave do EP. Exploramos também o uso dos synths ainda mais que no ep anterior, "The Last Angry Boys In Town", guitarras foram balanceadas novamente com as modulações. Bebemos muito na fonte de estilo como dreampop, new wave, e até no rock industrial. Já para o nome, pensamos em algo que "soasse" enigmático, além de refletir numa piada interna dentro da banda, acho que no fundo, todo mundo se parece com um cão selvagem que vive perigosamente nas ruas sendo pouco notado.

O vídeo lyric de "Bag Of Bones" ficou muito legal. Particularmente é minha faixa preferida do EP. Conta mais sobre a produção dele.

Sempre acreditamos no estilo DIY de se produzir. Mesmo quando a grana tá curta, o importante é fazer, mais importante ainda é se trabalhar na ideia, no conceito.  Para o "faça você mesmo" é preciso coragem, e sempre fomos fiéis representantes dessa perspectiva. Nós mesmos produzimos, filmamos, e editamos o clipe de Bag Of Bones. Pensamos em tentar criar um "lyric vídeo real" explorando alguns lugares do centro de Fortaleza. Em nosso clipes fica claro a nossa relação com a nossa cidade natal, até com o bairro onde crescemos. Tentamos ser o máximos possíveis suaves nas transições e cortes das imagens no clipe, explorar um lado calmo diante do caos da metrópole. E curtimos muito o resultado apresentado. Foi feito com muito carinho e amor.



Hoje em dia a forma como consumimos música mudou muito e o streaming é sem dúvidas a bola da vez. Porém é comum artistas independentes liberaram no Bandcamp, por exemplo, o download gratuito e vi que vocês optaram por não liberar o novo. Isso parte da banda ou da gravadora? O download gratuito não daria, de certa forma, um alcance maior a banda?

Como estávamos conversando com a galera do Dinamite Records pra fazer o lançamento deste novo trabalho em conjunto. Já havíamos hospedado o EP no Bandcamp fazia algum tempo para ser explorado com o trabalho junto a imprensa. Também acreditamos no download gratuito e vamos liberá-lo a qualquer momento por lá. O importante sim é fazer a música rodar nesse primeiro momento, e estamos nos esforçando muito pra isso. Ficamos felizes com a primeira recepção do público para este novo trabalho. Quantas mais ferramentas ele estiver inserido, seja em plataformas streaming ou não, mais possibilidades de alguém acabar escutando-o.



Algumas bandas daqui do Ceará migraram pro eixo Rio-São Paulo talvez para alcançarem mais visibilidade. A Old Books Room pensa em mudar pra lá um dia?

Ano passado fomos pela primeira vez pra São Paulo e curtimos bastante nossa primeira tour por lá. Vários amigos e contatos antigos chegaram aos shows, conhecemos muitas pessoas interessantes e foi uma experiência importantíssima pra todos nós. Temos sim esse desejo, mas ainda estamos nos articulando por aqui pra fazer ele acontecer, ainda temos muitos passos a dar e é fundamental preparar uma transição tranquila. Por enquanto pensamos em tocar com mais frequência nesse eixo sim.

Por último, poderia indicar pra nós dois lançamentos sendo um nacional e um internacional?

Claro que sim! Admiramos o trabalho de muita gente por aí. E devido ao trabalho articulado em parceria com a Mutante Radio, na qual somos produtores e apresentadores, esses últimos tempos estamos escutando muitas bandas nacionais independentes fantásticas. Difícil até indicar apenas um lançamento, mas indicarei um som que saiu esses dias, a banda se chama Homenivisivel de SP, acabaram de lançar um EP de estréia chamado "Formas Negativas". Está sensacional, escutando incansavelmente, pra quem curte um noise, shoegaze, vai se amarrar. Já para o lançamento internacional, vou indicar algo que não é bem um lançamento mas é outra banda que venho escutado com muita frequência. A banda se chama Thrice e lançaram seu ultimo novo trampo em 2016, o álbum se chama "To Be Everywhere Is To Be Nowhere". A banda tinha dado um hiato mas voltaram este ano e já tem data marcada para passar pelo brasil.

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28 de agosto de 2017

Entrevista: The Sorry Shop

O Música Café (Moisés Lima) conversou com o Régis Garcia da banda The Sorry Shop que recentemente lançou seu terceiro disco, o ótimo "Softspoken". Confere abaixo o que o músico falou sobre a banda, o novo disco e de quebra algumas dicas pra gente ouvir depois. Gratidão!

Como se construiu a identidade sonora de vocês?

Sabe quando você vai na geladeira e tem um monte de sobras e você coloca tudo em uma omelete? É mais ou menos isso. A identidade sonora da The Sorry Shop é uma mistura de uma porção de coisas que esfriaram, que não estiveram sempre visíveis. Quando nós começamos a pensar em gravar as primeiras coisas, o Yuck, banda inglesa que veio no inicio de um novo momento do shoegaze/dream-pop,estava apresentando o primeiro disco. A genética deles orientou muito a nossa (re)constituição sonora. Veio muito do que, especialmente, eu e o Marcos ouvimos nos anos 90, como Built to Spill, Dinosaur Jr, Pavement e, é claro, as coisas mais afundadas em reverb. A partir desse resgate de boas recordações musicais, começamos a planejar as coisas da The Sorry Shop com uma estética bem lo-fi, que não foi abandonada, mas foi sendo lapidada e ganhando novos contornos, em especial com a volta ao estúdio de bandas como Slowdive, Ride e MBV. O que fazemos hoje, em especial no Softspoken, é uma mistura do que a gente ouvia quando mais jovem com o que foi aparecendo ao longo do tempo com a mesma estética. Não é inovador, não é nada que não tenha sido feito antes, mas nessa genética nova tem também nosso DNA, o que já nos deixa bem satisfeitos.

Uma pergunta de praxe: porque as letras em inglês? Soa mais fácil cantar em inglês devido o shoegaze?

Eu não tenho certeza se "mais fácil" seria o termo mais adequado para explicar isso, mas definitivamente é mais confortável. Pra ser muito honesto, em momento algum tentamos escrever letras em português para as músicas da The Sorry Shop. É, talvez, parte de uma herança musical, sabe? Não vimos necessidade de pensar em fazer diferente, em especial por considerarmos que o inglês, de maneira geral, é mais acessível (ou popular) que a língua portuguesa não só para esse nicho específico, mas para o público global que tipicamente tem interesse nessa estética.

O shoegaze e derivados tem um público bem específico, porém bastante fiel. Aqui no Brasil não é diferente. Existe um objetivo por trás de cada lançamento de buscar ampliar esse público paralelo a uma visibilidade maior?

Talvez não haja necessariamente o objetivo, mas sempre há uma expectativa de ampliar o público. Contudo, posso dizer com certeza que quanto mais fazemos algo que nos deixe musicalmente satisfeitos, menos interesse do público vamos tendo. O primeiro disco da The Sorry Shop é um grande orgulho pra gente, mas dificilmente seria composto hoje depois de encontrarmos nossos timbres, batidas e por aí vai. O Bloody, Fuzzy, Cozy é um disco mais acessível, creio eu. O Softspoken nem tanto. A quantidade de camadas, a mixagem, as escolhas estéticas vão cada vez mais pra longe do que eu compreendo como popular (apesar de não achar de forma alguma que o disco é experimental ou ainda qualquer coisa chocante/extrema). Não que o Softspoken não tenha extrapolado (em números que a gente consegue ver, mesurar) o Bloody, mas a gente sente que a resposta do público geral é mais amena. Nesse sentido,gostaríamos da visibilidade, mas sabemos que o oposto pode acontecer e estamos tranquilos com isso.



O estilo tem seus desafios pois tem uma base fechada que pode dificultar, aparentemente, agregação de novos valores sonoros. A banda tem esse cuidado de fugir da redundância?

Sim e não. Sim por tomarmos cuidado pra evitar clichês, em especial aqueles que já foram massacrados com o tempo. E não por sabermos que inevitável tangenciar um trabalho que já passou por nossos ouvidos e nos influenciou. Nesse caso, quando sentimos que estamos reproduzindo um clichê em algum elemento de uma música, fazemos o possível pra estragar tudo e transformar aquele elemento em algo que possa, inclusive, ser justamente o ponto (fora da curva) focal do ouvinte.Em casos em que gostamos do resultado redundante, clichê, simples, pouco criativo, acabamos deixando pra lá e tudo bem.

"Softspoken" está sendo pra mim um dos melhores discos nacionais do ano. Talvez pra mim o melhor da banda. Nele vocês parecem mais maduros, precisos tanto no peso do instrumental quando na linha melodica dos vocais. Vocês sentem isso também? Como se deu sua origem?

O Softspoken foi o disco mais difícil de terminar. Ele foi criado e recriado pra evitar o sentimento de falta de originalidade, por isso esses 4 anos desde o Mnemonic Syncretism. A gente sente essa maturidade, sim, mas não compreendemos isso como o ápice do que podemos fazer. O disco foi entregue por precisar ser entregue, pra que a gente pudesse seguir em frente, mas nós temos sempre a ideia de que pode fazer ainda melhor e melhor. O Softspoken nasce do fim do Mnemonic. É um frankendisco, um híbrido do que existia antes e do que é agora, mexido e remexido até que chegasse em um patamar que a gente considerasse aceitável. Por mais estranho que pareça, ele só foi tomar, de fato, um semblante, uma aparência mais consistente, nos últimos meses antes do lançamento ao longo destes 4 anos. A gente fica muito orgulhoso, é claro, quando alguém nos diz que acha um bom disco, ainda mais um dos melhores do ano (obrigado!!), mas nem sempre é fácil acreditar.

O disco vai sair em mídia física?

Sim! Nós planejamos lançar até setembro em cd. Gostaríamos bastante de fazer tiragens limitadas em K7 e em vinil, mas ainda não sabemos se será possível.

Por último, vocês acompanham os lançamentos nacionais ou internacionais de shoegaze/dream-pop/post-rock? Se sim, poderia indicar algum disco pra gente?

No Brasil, o último do Lava Divers, o "Plush", é fantástico e vale cada segundo. Outro grande disco que saiu por aqui agora foi o segundo (tenho quase certeza que é o segundo) do Electric LO-FI Seresta. De fora daqui, das últimas coisas que escutei, gostei bastante do "Sun", do Lilac e o "Queen of the Nebula", dos japoneses do Plant Cell. Das coisas ainda não lançadas esse ano, dá pra ficar de olho logo pra quando sair os novos do Airiel e Stargazer Lilies e dos brasileiros da Oxy e da Loomer.


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20 de agosto de 2016

Entrevista: Subcelebs

Alinne Rodrigues, Igor Miná, Eric Catunda e Nyelsen B são as subcelebridades da vez aqui nos arredores de Fortaleza. Eles formam a Subcelebs, banda que lançou ano passado seu primeiro EP, homônimo, um registro de quatro ótimas faixas esbanjando um pop cheio de distorções e ruídos.

O Música Café aproveitou a vizinhança e entrevistou o guitarrista Igor Miná acerca da banda, do primeiro EP, da cena em Fortaleza, dos serviços de streaming e outras coisas mais. Confere aí abaixo. Desde já gratidão e sucessos a banda.

MC: Como vocês se definiriam?

Igor: Indie pop com um pouco de noise.

MC: Vocês começaram a carreira como Telerama e depois que a banda acabou você e a Aline começaram um projeto chamado Banda Desenhada logo após veio a Subcelebs. O que mudou desde a Telerama para a atual Subcelebs?

Igor: Na época da Telerama, a gente era muito novo e, como todo mundo que começa a fazer música, ainda estava descobrindo que tipo de som queria fazer. Por isso a Telerama tem músicas que se encaixariam até em gêneros diferentes se a ideia é classificar. Com a Banda Desenhada, a gente mergulhou no twee pop e chegou a entrar em coletâneas internacionais com bandas do estilo. Agora, mais de dez anos depois de termos começado a tocar, continuamos gostando de fazer música bem melódica e assobiável, mas quisemos trazer pra Subcelebs uma sujeira que os outros projetos não têm e, apesar de continuarmos compondo em português, nosso som têm cada vez menos elementos tipicamente brasileiros – ou essas influências agora aparecem de forma menos óbvia, mais diluídas. E estamos mais leves nas temáticas. Estamos mais preocupados em nos divertir compondo e tocando.

MC: A cena independente no Ceará mudou muito pra vocês ao longo do tempo? Há movimento?

Igor: Sim. E há muito movimento, vindo de todos os lados, o que é ótimo. Hoje a gente tem um estúdio e um selo, a Mocker Discos, e já lançou vários novos artistas diferentes e muito legais. Estamos envolvidos também em diferentes iniciativas voltadas ao fortalecimento do mercado de música local, como o Projeto Circuladô e a Musicoletiva.



MC: Vocês se arriscariam a participar em um desses programas de televisão como o Superstar? O que pensam sobre ele?

Igor: Não. E acho que nem seja questão de arriscar, mas de ter interesse ou não no que o programa traz. Pra gente, esse modelo de mega-astro, lançado por major e com música na novela, já não faz muito sentido. Já faz muitos anos que a gente consome prioritariamente música independente, feita por artistas pequenos lançados por selos pequenos, mas com carreiras perfeitamente sustentáveis. É nisso que a gente acredita e se foca hoje.

MC: Há uma discussão a cerca dos serviços de streaming e a remuneração dos artistas. Como vocês encaram o uso desses serviços?

Igor: Nós achamos ótimo que eles existam, porque colocam na mesma playlist artistas independentes e artistas consagrados, ao contrário de plataformas específicas para artistas indies, como o Bandcamp e o Soundcloud – que, claro, têm o seu valor, tanto que também disponibilizamos tudo por lá. Sobre remuneração, muito dessa polêmica parte de artistas enormes, que surgiram em outro momento da indústria ou se encaixam no modelo tradicional, como o Radiohead. Realmente, ganhar frações de centavos por play é pouco para quem estava acostumado a ganhar muito mais do que isso com execuções em rádio e TV – mas não essa nunca foi nem será a realidade de artistas independentes, então não vejo muito sentido em se rebelar contra isso quando se é um desses artistas. Os benefícios de estar nesses serviços são maiores do que as perdas. Por outro, é sabido que todos esses serviços operam no vermelho, com muita gente investindo esperando um dia ter retorno. Se mais pessoas optassem por assinar os serviços, esse retorno seria mais rápido para os artistas, selos e investidores. Acho que o maior desafio para todos ainda é fazer o público da era digital entender que é importante pagar por música.

MC: No EP que vocês lançaram o som está bem mais garageiro, cheio de ruídos, despojado, diferente do pop chiclete de antes. Pode citar algumas referências do EP? Como foi a criação?

Igor: Pavement, Pixies, Yuck, Yo La Tengo… Enfim, bandas velhas e novas que não ligam muito se o som está caseiro demais ou distorcido demais. Limpeza, definitivamente, não é uma das prioridades da Subcelebs. O EP foi todo produzido no nosso estúdio, o Mocker, que é também a nossa casa. Bateria, baixo, synth e as bases de guitarras foram feitos ao vivo, porque queríamos essa atmosfera. Depois complementamos com os vocais e overdubs de guitarra.

MC: Indica aí pra nós dois lançamentos desse, um nacional e um internacional.

Igor: Eu indico o do Kurt Vile, "b'lieve i'm goin down" e o "Paraleloplasmos", do Lê Almeida.
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28 de abril de 2016

Entrevista: Bia e os Becks

A terceira entrevista que acontece no Música Café é uma banda que já apareceu aqui no blog como indicação, a Bia e os Becks de Teresina - Piauí. Na ocasião eles tinham recém lançado seu primeiro EP chamado "Conto Amor trazendo uma mistura de mpb e soul com uma pitada de regionalismo.

Esse ano a banda apresenta seu mais recente EP "Todo Lascado" com quatro músicas inéditas e download gratuito. O Música Café entrevistou o guitarrista Mário Araújo que falou um pouco sobre a sonoridade do grupo, produção do novo trabalho e da cena piauiense. Confira logo abaixo.

MC: Como surgiu a Bia e os Becks? E de lá pra cá como vocês se enxergam hoje? Mudou muita coisa?

MA: A banda surgiu em 2012 em Teresina, ela foi fruto (como não poderia deixar de ser) da união de amigos em comum que já tocavam em outras bandas da cidade, no caso o Ramon Rodrigues (baixo), Rafael Franco (percussão), Mário Araújo (guitarra) e a Bia, que acabara de entrar nesse mundo de bandas e música, no sentido de ter banda e fazer shows. A Bia tinha algumas músicas de sua autoria e me convidou pra fazer alguns arranjos pra ela que iria se apresentar num sarau de poesia...e a partir daí foi um pulo pra gente inserir o Rômulo Vieira (bateria) pra fechar o time e começar a amadurecer a ideia. De lá pra cá a banda já mudou de baixista duas vezes, o primeiro foi o Luiz Wagner, que nem chegou a fazer um show mas teve papel importante por ter gravado os baixos do nosso primeiro EP/demo “Conto Amor”, e atualmente temos o Lucas Coimbra nesta função. Além disso após o resultado do nosso segundo EP inserimos o Cássio Carvalho nos teclados. Hoje somos uma banda mais madura, mas que ainda é bem jovem e está aprendendo bastante com os caminhos da vida haha.

Ouça a faixa "Ressaca" do EP "Conto Amor"

MC: Normalmente bandas que lançam um EP demonstrativo partem, logo em seguida, em busca de lançar o primeiro disco cheio. Vocês, porém, preferiram lançar outro EP. Porquê? Esperam um momento ideal pra lançar o primeiro álbum?

MA: O primeiro EP na verdade é bem mais como uma demo, ou um teste de como a banda poderia soar. Eramos bem imaturos musicalmente e no fim das contas é um trabalho que hoje sinto que poderia ter sido bem melhor explorado em termos de arranjos e timbres. Mas enfim, esse não é o motivo principal por rolar o lançamento de um segundo EP, o motivo principal é: falta de grana! hahaha É bem mais fácil produzir um disco hoje em dia, claro, mas ainda precisamos da grana pra isso....e geralmente não é barato. Então resumindo, dois motivos para lançar um segundo EP: a banda está mais consistente e a sonoridade melhorou consideravelmente em relação ao primeiro o que nos fez optar por lançar como algo novo, e segundo: ainda estamos levantando recursos pra um full album hehe

MC: Apesar da proposta da banda de se enquadrar na dita nova roupagem da mpb eu diria que existe algo a mais. Talvez alguma coisa de soul, funk e até um pincelada no jazz tanto nos vocais como nas melodias. Ouvindo o novo EP "Todo Lascado" essas referências pareceram mais presentes. É por aí o caminho?

MA: Sim! Você está corretíssimo. Isso tudo faz parte de nossas influências em geral, claro. Acho que esse é o ponto central do nosso trabalho e de tantas outras bandas, justamente essa mistura, esse passeio por tudo que nos toca de alguma maneira.



MC: Os arranjos das faixas estão bem enriquecidos e mostram a versatilidade da banda bem como reflete a boa produção. Sobre isso, como foi a produção do EP?

MA: O EP foi produzido por nós junto com o João Paulo Araújo, o nosso “sétimo beck” hahaha, inclusive tem o dedo dele em algumas composições como Ardor Amor em parceria com a Bia e Síndrome de Câncer que é de autoria dele. As composições vieram de várias formas... Ardor Amor era só voz e violão, ganhou toda aquela cor com os arranjos do Lucas Coimbra, Burlesca já rolava em alguns shows mas com aquela sessão de metais feita pelo arranjador Wiltenberg Rodrigues a música ganhou imponência e a sofisticação que ela sugere, é sem dúvidas uma das minha favoritas. Síndrome de Câncer também já rolava ao vivo e foi a que menos sofreu mudanças em relação a estrutura, mas ganhou muito em timbres e riffs de guitarra, linha de percussão e bateria.... além dos emblemáticos “hm, que foi bicha?” e “valheu valheu” que rolaram durante as gravações e a gente resolveu manter hahaha... Já Trejeitos é um tributo a nossos amigos da banda Alcaçuz, que encerrou suas atividades este ano aqui em Teresina, é de autoria do brother Pedro Ben e é sem dúvidas uma banda que merece ser ouvida. Nela fizemos um lance mais eletrônico com muito teclados, sintetizadores e bateria eletrônica além de transformar a letra, antes um monologo, em um diálogo entre um casal. No geral ficamos muito satisfeitos com o resultado final de tudo, e com certeza é por esse rumo que todos os nossos futuros trabalhos devem seguir.



MC: É natural que toda banda queira ter seu trabalho reconhecido seja por muitos ou por poucos, porém fiéis seguidores. Qual tem sido o impacto das redes sociais e as plataformas de streaming sobre a banda?

MA: O impacto está sendo o melhor possivel! Percebemos que os novos ouvintes estão cada vez mais se interessando pela banda e aparecendo mais nos shows, os nossos amigos/fãs/seguidores mais antigos também sentiram uma evolução natural no som da banda e continuam nos apoiando cada vez mais. Isso tudo se reflete nas performances, pré-produção de shows, nossa presença nas midias locais de maior alcance como rádio e tv e no nosso sentimento de dever cumprido :)

MC: A cena local é favorável para música autoral ou o eixo sul-sudeste parece mais promissor?

MA: Ai chegamos num ponto bem delicado hahaha este é um assunto recorrente e até saturado nos debates dos músicos de Teresina, mas acredito que seja também em diversas outras cidades. Bem, ainda há muito o que se fazer em nossa cidade em relação a formação de público, jornalismo cultural, e o próprio amadurecimento das bandas. Produção é o que não falta, mas parece que tudo é meio mal aproveitado...Não acredito que o eixo sul-sudeste seja mais promissor, na verdade deve ser bem mais dificil! Imagina a quantidade de bandas boas, muito boas mesmo, disputando a atenção de um público que a cada dia é cada vez mais bombardeado por tantas músicas de tantos lugares...acho que o lance é mudar o nosso cenário e faze-lo crescer... a gente percebe uma efervescência em São Luís, Recife, Natal o lance é saber o que falta na nossa cena pra termos produções ao nível dessas capitais vizinhas. Mas acredito que uma coisa é certa: devemos começar pelas pessoas.

MC: Pra encerrar, indique duas ou mais bandas do Piauí para nós.


...e milhares de outros mais que iam dar duas páginas se postasse tudo aqui, obrigado!



Veja outras entrevistas:
→ Aline Lessa
→ Nosso Querido Figueiredo
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29 de junho de 2015

Entrevista: Nosso Querido Figueiredo

Recentemente o Nosso Querido Figueiredo, o Matheus Borges, lançou seu mais novo trabalho chamado "Eu Não Estou Em Sintonia" publicado aqui no blog. Ele cedeu gentilmente uma entrevista falando um pouco mais sobre o disco, segundo ele um de seus preferidos, sua música e referências bem como sua visão sobre a cena alternativa tupiniquim. Foram dez perguntas feitas e dez respostas sinceras que você pode ler logo abaixo.

MC - Olá Matheus tudo bem? Pra começar a entrevista porque esse nome curioso, Nosso Querido Figueiredo?

NQF - Não sei se existe uma razão para esse nome, eu não lembro direito pra falar a verdade. Existe uma história de origem, é claro. Tudo começou quando eu vi alguém se referir a outra pessoa como “nosso querido xxx” e pensei que seria engraçado se alguém já tivesse essa expressão de afeto no nome. Depois, eu fiquei algum tempo tentando encaixar sobrenomes em “nosso querido” e parei no Figueiredo. Não sei como, não tem a ver com o presidente da república.

MC - Você já lançou dezenas de discos desde 2008. Quando você começou era esse o objetivo: lançar muitos discos em tão pouco tempo? E alguns deles saiu em formato físico? 

NQF - Quando eu comecei, não tinha muitos planos. Gravei umas músicas em 2008, um EP chamado “Fugere Urbem”, porque queria expressar aquelas coisas. São canções de raiva e de tristeza. No ano seguinte, eu estava mexendo nuns softwares e gravei umas coisas. Virou o primeiro álbum, “Let It F”. Até 2010, mais ou menos, as gravações são meio toscas porque eu estava mais brincando do que tentando fazer alguma coisa. Aí eu gravei um EP chamado “Volume 2”, que tem esse nome justamente porque eu estava inaugurando uma fase nova. Gravei umas cópias em CD, dei aos meus amigos. Mas foi só isso.

MC - Com relação as inúmeras composições: como elas surgem e qual o cuidado que você tem para elas não soarem repetitivas?

NQF - Não tomo cuidado nenhum para elas não se tornarem repetitivas. São muitas composições, então acabo repetindo algumas coisas, principalmente palavras ou cenas. Mas isso é bom, porque essas palavras adquirem outras formas, outros significados dependendo do contexto.



MC - Em seu novo álbum você pareceu mais ambicioso e o release do seu disco afirmava isso ao dizer que você gostaria que as músicas fossem um hit em potencial. Isso significa, indiretamente, um busca por um reconhecimento/visibilidade maior?

NQF - São hits em potencial. Isso quer dizer que eu tentei me ater à forma tradicional de canção popular. Mais porque eu me interesso por isso do que para buscar um público mais amplo. Se as pessoas querem ouvir, elas ouvem. Essa é a graça da internet, qualquer coisa é um hit em potencial.

MC - Como surgiu o título do disco "Eu Não Estou Em Sintonia"? Sintonia com o que?

NQF - Esse título é meio que a síntese de uma sensação. Deslocamento, isolamento, alienação. Clausura. Também se refere ao conteúdo do álbum – são canções que você não vai ouvir ao sintonizar o rádio em qualquer estação.

MC - Outro dia, logo no lançamento de "Eu Não Estou Em Sintonia", você disse que esse era um dos seus preferidos. O que o torna diferente dos outros tantos discos que você lançou?

NQF - É um dos meus preferidos, sim. Demorei muito tempo para compor, para elaborar os arranjos, para pensar no álbum todo. Foi muito fácil de gravar as vozes, eu já tinha uma intimidade gigante com as faixas. Mais do que com quaisquer outras nesse momento de produção. E o resultado final me agradou muito. As faixas têm vida própria e, quando somadas, funcionam muito bem. Queria que o álbum soasse como alguma coisa gravada há trinta anos e redescoberta recentemente no porão de um colecionador. Que tivesse uma energia latente, três décadas de abandono que te atingem de uma só vez. Gravei umas vinte e poucas músicas, demorei até chegar ao número treze. Estou muito satisfeito.

MC - O post-punk e a new wave são suas essências que você usou bem nos últimos dois discos. Por que escolheu essa sonoridade? Pode citar algumas bandas que você usa como referência nesses estilos?

NQF - Eu sempre fico meio que transitando entre gêneros, uma coisa meio pastiche, etc. Mas eu sempre me vi muito mais próximo do pós-punk. Até porque esse termo implica, entre tantas coisas, a variedade absurda de estilos que surgiram depois do punk e que acabam sendo uma coisa só. Até pastiche. Porque existe música pós-punk psicodélica, barroca, minimalista, disco. Eu gosto de interpretar o pós-punk como se fosse o próprio movimento punk tentando entender outras expressões. O “Eu Não Estou Em Sintonia” foi influenciado muito por essa ideia. Mas os artistas que mais me influenciaram durante o processo não foram apenas os desse período. Ouvi bastante Wire, mas também Prince, Flaming Lips e Belchior.

MC - O cenário alternativo, underground, lado b, como queira chamar, da música brasileira é sempre um assunto recorrente e nesses últimos anos ele tem ganhado cada vez mais visibilidade. Se pensas igual, o que você acha que fez com que isso acontecesse?

NQF - Isso demonstra o interessa das pessoas – do público em consumir, da imprensa em noticiar, do artista em produzir. O público consome primeiro o que é mais fácil de achar. Consome a Banda do Mar. Daí aumenta o interesse, procura novas referências e acaba consumindo Rafael Castro, Jair Naves. Quanto mais interesse, mais fundo o cara vai, até chegar ao fundo mesmo, ao Figueiredo. A imprensa percebe esse interesse, acaba por noticiar mais coisas para suprir essa demanda. Os artistas se descobrem em um momento propício, com ferramentas democratizadas e baratas de produção. Podem enviar eles mesmos um e-mail para a Pitchfork. Tudo isso é favorável.

MC - Quais suas perspectivas para o futuro?

NQF - Ainda não sei. É a primeira vez que lanço algo novo sem ter o sucessor já em andamento. Muito curioso. Libertador, também.

MC - Pra encerrar, sugira um disco nacional e um internacional que tem a aprovação do Nosso Querido Figueiredo.

NQF - Vou me ater a coisas recentes. Entre os nacionais, preciso citar dois álbuns desse ano que me tocaram profundamente: “Fortaleza”, do Cidadão Instigado, e “Existe Alguém Aí?”, do Wander Wildner. Dos estrangeiros, o último do Sun Kil Moon, “Universal Themes”.



Outra entrevista:
- Aline Lessa (clique aqui)
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