24 de julho de 2019

Entrevista: Vitor Colares


O músico cearense Vitor Colares que recentemente lançou o ótimo "Psicogeografia: Veredas III" concedeu uma interessante entrevista aqui pro Música Café. A entrevista é um passeio por sua trajetória cheia de inspirações e vislumbres musicais além de deixar várias dicas pra nós. Se liga aí!

De onde veio o músico, faz tudo, Vitor Colares? Você produz tudo em casa?

A maior parte dos meus discos, sim, eu produzi em casa. Sempre fui muito partidário do “faça você mesmo”, e do jeito que você puder. Lógico que há 15, 20 anos atrás, quando eu estava nas minhas primeiras bandas e fazendo meus primeiros registros, a indústria fonográfica, daquele jeito clássico que se fez existir, estava no seu auge, estava no melhor momento da sua história, e isso fazia tudo ser mais distante, hoje mudou um tanto. Naquela época era um pouco mais difícil sonhar com isso, gravar em casa, produzir seu próprio material. Eu ainda não sou tão bom com o computador como gostaria de ser, tenho um laptop quase peça de museu, doado por uma amiga irmã, a Clara Capelo, e que me ajuda a baixar coisas e upar meus conteúdos na internet, fora isso, ele não aguenta muita coisa. Não gravo, nem mixo, nem nada nele, senão ele trava hahah... Mas me ajuda tanto mesmo assim. Os três VEREDAS, a trilha do NUNCA, o Fotografia de Rachadura e o Dance Primitivo, todos estes álbum foram gravados em casa, num gravador que é do meu irmão, Rodrigo, um DR-40 da Tascam, e mixei e masterizei na casa do Diego Maia. O Cozilos Vivos – Violação de Propriedade Privada eu gravei na casa do Diego mesmo.

O Saboteur foi gravado em SP e o Eu Entendo a Noite Como um Oceano que Banha de Sombras o Mundo de Sol foi gravado no Quintal Estúdio, que é do Felipe Couto (Astronauta Marinho, Vacilant), mas mesmo estes, que não gravei sozinho, gravei a maior parte do material e estava junto na mixagem também. Gosto de funcionar assim e acredito que funciono bem, me dá liberdade pra ir na minha velocidade, que muitas vezes é um pouco rápida rs... Mas se fosse te falar de mais fatores que contribuíram pra isso, eu diria... A vontade de ver como seria algo feito só por mim. É uma curiosidade que acho pertinente.. Trabalho muito coletivamente também e gosto bastante dos resultados impessoais e únicos dos trabalhos coletivos, mas também gosto de ter este lugar pra ser mais eu o suficiente possível... Até pra pedir auxílio em algo que não sei fazer direito. Sem prepotências de auto-suficiência. Preciso escoar meu material também, e é praticamente uma questão de vida rsrs... Não me agrada ver materiais meus sem algum tipo de registro, por mais que eu regrave-os depois. Como também gosto das coisas minimáís.



O som que você faz é bem peculiar, bem fora da curva do que é feito no Brasil de um modo geral. Você mesmo consegue explicá-lo pra outra pessoa? De onde vem esse gosto/inspiração por esse som mais abstrato?

Humm... Bem, eu sou um boy que cresci ouvindo as músicas do final dos anos 80 e anos 90... Acho que o rock, por mais cansada que esta palavra esteja seja, peço que abstraia esse sentido... Nem sei pra onde, mas abstrai aí rs... Até os rótulos estão tão rotulados que é necessário buscar novos afetos nas palavras que indústria fonográfica sugou até esgotar tudo.

O rock vale como referência, música eletrônica minimal, música brasileira em lugares diferentes, eu escuto muitos sons e sou influenciado de maneiras bem diferentes por eles, às vezes... Quase recomeçando aqui rs... Acredito que uma ideia que permeia todos estes discos é a ideia de paisagem. Não é paisagem sonora (apenas). É paisagem. Sem subdivisões. Tudo que a ideia de paisagem engloba. Imaginação, sonho, sentimento e sentidos, tudo é imagem. Acho que daí vem a ligação estreita que tenho com trilhas sonoras. Gosto muito de criar.

Acredito que é um som minimal com ações do imaginário roqueiro passando por alguns artistas marginais brasileiros e outros experimentais estrangeiros. Sem falar de alguns grandes nomes que são importantes demais para quase todos. Parece fácil explicar pra outra pessoa, mas não é.

A evolução tecnológica, a mídia social como os serviços de streaming causam um impacto na sua música? Tipo, te tornou mais visível?

Eu só comecei a lançar discos (solo) de 2012 pra cá, e graças à internet e as tecnologias todas de software e hardware isso foi possível. Meu trabalho circulou e circula muito pouco, muito por culpa minha que sou desorganizado e sempre estou me envolvendo com algum trabalho novo por aqui o que sempre me ocupa e me impeço de fazer mais apresentações ao vivo, por exemplo. Mas eu tinha bandas antes e sei como era também. Acredito que definitivamente pra quem faz coisas sozinho de casa, isso tudo faz uma diferença absurda. Tá tudo em um link, sempre. Antes era na base da carta, telefone e email um pouco depois, aí veio iRC, msn e Orkut... Isso tudo teve tem seu lado bom.

A facilidade de uso que os programas de gravação digital ganharam com o tempo é enorme, já a acessibilidade financeira é outra coisa. Mas, definitivamente, me tornou mais visível. Existem várias maneiras... Por exemplo, uma pessoa ouve Jardim Suspenso na versão da Soledad, ou na do Daniel Groove, nos links relacionados por aí vai aparecer a minha versão em algum momento, isso tudo são acessos facilitados, apesar dos algoritmos e das postagens pagas. Mas é muito bom poder conversar olho no olho, ver a pessoa tocando ao vivo, estas coisas não perdem o seu valor.

Psicogeografia é terceiro da série "Veredas". Como surgiu essa ideia da trilogia "Veredas"? Cada disco tem um significado diferente ou é uma "história" fragmentada?

O Veredas não surgiu como uma ideia de trilogia, porém quando fiz o primeiro eu já sabia que haveria continuidade. Recentemente, durante as pesquisas que deram nestes discos que lancei (VEREDAS III) e lançarei ainda em 2019 (Arruamentos, que serão dois álbuns), eu compreendi que o Veredas seria uma trilogia, pelo menos por enquanto. Existe o final de um ciclo que se escreve agora com estes lançamentos, por isso esta série se encerra como trilogia. Curioso é que O VEREDAS III é o último de uma trilogia e o primeiro de outra. Estes três álbuns de 2019 são uma trilogia também. Vitor C. / VEREDAS III : PSICOGEOGRAFIA, Vitor C. / Arruamentos e COZILOZ VIVOS / Arruamentos são uma trilogia também.

Mas, voltando à série Veredas... E voltando ao papo sobre paisagens... O VEREDAS I é bem solitário e distante da cidade, mas gira em torno desse imaginário sobre cavalos desenhados com grafite, o VEREDAS II é uma fuga obcecada e o VEREDAS III é o mais urbano dos três, e vem antes, já decompondo mapas compostos para os Arruamentos. Os Veredas também falam sobre composição e improviso em curto espaço de tempo, poucos dias. Como num fluxo e lavagem e cura.



O "Saboteur" lançado em 2012 foi seu primeiro disco. De lá até o Psicogeografia mudou muita coisa?

Sim e não... O Saboteur demorou um ano sendo gravado e mais alguns meses de mixagem depois. Esse processo todo foi bastante permeado por inseguranças e aprendizados que me servem até hoje. Por isso digo que “não” também. Mas, por outro lado, acho que nenhum outro demorou tanto, e talvez esse fosse um motivo pra dizer “sim”. No Saboteur houve muita liberdade pra fazer o que quisesse e isso me deu uma segurança que eu nunca havia tido antes. Com o passar destes sete anos, me sinto mais confiante comigo mesmo pra executar minhas ideias. Mas quando olho para o Saboteur vejo um disco que eu não mudaria nada, absolutamente nada.

Gosto tanto do contexto de cada um deles, entende... Mesmo os que eu talvez fizesse algo diferente, não faria rsrs... Acho que é daqui pra frente. Como eu falei sobre o fim de um ciclo, acredito que comecei com o Saboteur e ramifiquei as coisas em pelo menos umas três vias diferentes e acho que agora é hora de juntar isso tudo com algo novo pra 2020 ou depois. Não sei o que vem, mas sei o que se encerra. Mas muita coisa mudou sim, e algo sempre fica... Sou agradecido pelas experiências que tive e tenho e que sempre me ensinam algo. Meu trabalho na verdade não se faz só, sei lá, a cada trilha que faço e ensaios diversos com artistas bem diferentes uns dos outros me enriqueço muito de ideias para pensar um trabalho meu. Algo sempre. Nunca a mesma pessoa, nunca o mesmo lagoa, né.

Você é daqui de Fortaleza. Lembro que houve um boom de bandas por aqui lançando disco e clips na TV como a 2Fuzz, a Macula, Mafalda Morfina e a Moço Velho por exemplo. O campo pro artista independente aqui está fértil?

Pois é... Esta cena tem pelos menos uns 12 anos, Mafalda Morfina, Macula, 69%love que depois alguns membros fizeram a Moço Velho, mas acho que ambas foram contemporâneas da 2fuzz ao longo dos anos 2000 até ali, 2006 2007, que foi quando a 2fuzz parou, mas a Moço Velho acho que existe até hoje. Da Mafalda Morfina saiu a Lu Lívia que tem um trabalho novo. E a coisa se renova também... Acho que aqui sempre tem boas sementes, hoje em dia, acho que talvez tenhamos mais do que nunca, do Getúlio Abelha ao Facada, passando pelo Arquelano, Clau, Damn Youth, Luiza Nobel, Maquinas, Soledad e mais uns cem, não falta artista interessante pra gosto de todo jeito, mas falta lugar pra tocar, faltam mais produtores, faltam políticas públicas que respeitem de verdade o (ben)dito artista local. Falta mais mídia interessada no que é lançado aqui e no que é feito aqui em termos de música. Se você colocar isso tudo numa balança, é muito desigual, dá uma tristeza.

Não adianta ter boas sementes e não adubar, não aguar. Naquela época a TV União deu uma força e tinha um alcance que hoje já é bem mais diluído pelo youtube e outros serviços de streaming. Lamento mesmo é que a maioria das bandas desta geração da 2fuzz e tal e das gerações anteriores também não tiveram a oportunidade de serem gravadas, e a maioria das que tive esta oportunidade não chegaram aos spotifys e deezers da vida... São arquivos que se perderam nos cds e k7s mofados e descascados. Muitas vezes não tem nem onde rippar para upar nestas plataformas.



Por último, poderia indicar alguma banda pra gente.

Posso... Posso indicar algumas coisas? rs... Provavelmente vão ter alguns tantos já bem conhecido, mas não custa nada reafirmar... Aí acima, eu falei alguns já... Getúlio Abelha, Facada, Arquelano, Clau Aniz, Damn Youth, Luiza Nobel, Maquinas, Soledad... Ainda diria URO, Rodrigo e o Revoada Noturna, Diego Lucena, Procurando Kalu, Briar, Colorida, Algarobas. Tem a galera do rap, Nego Célio, Fluxo Marginal, Augusto José, Caio Plock e Caiô, tem o Mateus Fazeno Rock e o Casa de Velho, Vitoriano e Seu Conjunto com esse álbum duplo épico doido que a segunda parte foi lançada recentemente, Pulso de Marte, o pessoal da Berlin Tropical, Clapt Bloom e Lua, Orlok Sombra e a Pé de Jambo Rec, Igor Caracas, Oto Gris, Daniel Medina, dronedeus, Missjane, Old Books Room... Ayla Lemos e Dani Matuti, que ainda não lançaram seus materiais, mas se você puder vê-las ao vivo, veja. Terceiro Olho de Marte que está terminando um disco novo... Certeza estou esquecendo de mais gente... tem o Ode ao Mar Atlântico e o trabalho com som e ruído que o Eric Barbosa faz... Tem o ADSR, tem o Chinfrapala que está voltando agora. Tem a rainha Karine Alexandrino que, pra quem ainda não conhece, vale muito conhecer a discografia dela... e Cidadão Instigado né.

Fora do Ceará... Maria Beraldo, Ava Rocha, Josyara, Giovani Cidreira, Gustavo Galo que tá com um disco novíssimo recém lançado, e falando em novíssimo... O Novíssimo Edgar, já ouviu? O novo do Jards, Besta Fera. Jards, como um  todo, né. Negro Leo, gênio. Jonas Sá. Jocy de Oliveira, gênia absurda que todos que gostam das regiões mais distantes da expressão musical brasileira devem conhecer. Marlui Miranda, Tetê Espindola para além de Escrito nas Estrelas. Cátia de França. Baco Exú do Blues.

Fora do Brasil, poderia indicar... Black Midi, Christian Scott, Meg Myers, Einsturzende Neubauten, Yoko Ono, Ornette Coleman, Sun Rá, Chet Baker, Beth Gibbons, The Mars Volta que apesar de conhecidos não custa nada indicar para alguém que ainda possa não conhecer hahah... Death Grips... São muitas coisas, isso é o que lembrei no momento.

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