28 de agosto de 2017

Entrevista: The Sorry Shop

O Música Café (Moisés Lima) conversou com o Régis Garcia da banda The Sorry Shop que recentemente lançou seu terceiro disco, o ótimo "Softspoken". Confere abaixo o que o músico falou sobre a banda, o novo disco e de quebra algumas dicas pra gente ouvir depois. Gratidão!

Como se construiu a identidade sonora de vocês?

Sabe quando você vai na geladeira e tem um monte de sobras e você coloca tudo em uma omelete? É mais ou menos isso. A identidade sonora da The Sorry Shop é uma mistura de uma porção de coisas que esfriaram, que não estiveram sempre visíveis. Quando nós começamos a pensar em gravar as primeiras coisas, o Yuck, banda inglesa que veio no inicio de um novo momento do shoegaze/dream-pop,estava apresentando o primeiro disco. A genética deles orientou muito a nossa (re)constituição sonora. Veio muito do que, especialmente, eu e o Marcos ouvimos nos anos 90, como Built to Spill, Dinosaur Jr, Pavement e, é claro, as coisas mais afundadas em reverb. A partir desse resgate de boas recordações musicais, começamos a planejar as coisas da The Sorry Shop com uma estética bem lo-fi, que não foi abandonada, mas foi sendo lapidada e ganhando novos contornos, em especial com a volta ao estúdio de bandas como Slowdive, Ride e MBV. O que fazemos hoje, em especial no Softspoken, é uma mistura do que a gente ouvia quando mais jovem com o que foi aparecendo ao longo do tempo com a mesma estética. Não é inovador, não é nada que não tenha sido feito antes, mas nessa genética nova tem também nosso DNA, o que já nos deixa bem satisfeitos.

Uma pergunta de praxe: porque as letras em inglês? Soa mais fácil cantar em inglês devido o shoegaze?

Eu não tenho certeza se "mais fácil" seria o termo mais adequado para explicar isso, mas definitivamente é mais confortável. Pra ser muito honesto, em momento algum tentamos escrever letras em português para as músicas da The Sorry Shop. É, talvez, parte de uma herança musical, sabe? Não vimos necessidade de pensar em fazer diferente, em especial por considerarmos que o inglês, de maneira geral, é mais acessível (ou popular) que a língua portuguesa não só para esse nicho específico, mas para o público global que tipicamente tem interesse nessa estética.

O shoegaze e derivados tem um público bem específico, porém bastante fiel. Aqui no Brasil não é diferente. Existe um objetivo por trás de cada lançamento de buscar ampliar esse público paralelo a uma visibilidade maior?

Talvez não haja necessariamente o objetivo, mas sempre há uma expectativa de ampliar o público. Contudo, posso dizer com certeza que quanto mais fazemos algo que nos deixe musicalmente satisfeitos, menos interesse do público vamos tendo. O primeiro disco da The Sorry Shop é um grande orgulho pra gente, mas dificilmente seria composto hoje depois de encontrarmos nossos timbres, batidas e por aí vai. O Bloody, Fuzzy, Cozy é um disco mais acessível, creio eu. O Softspoken nem tanto. A quantidade de camadas, a mixagem, as escolhas estéticas vão cada vez mais pra longe do que eu compreendo como popular (apesar de não achar de forma alguma que o disco é experimental ou ainda qualquer coisa chocante/extrema). Não que o Softspoken não tenha extrapolado (em números que a gente consegue ver, mesurar) o Bloody, mas a gente sente que a resposta do público geral é mais amena. Nesse sentido,gostaríamos da visibilidade, mas sabemos que o oposto pode acontecer e estamos tranquilos com isso.



O estilo tem seus desafios pois tem uma base fechada que pode dificultar, aparentemente, agregação de novos valores sonoros. A banda tem esse cuidado de fugir da redundância?

Sim e não. Sim por tomarmos cuidado pra evitar clichês, em especial aqueles que já foram massacrados com o tempo. E não por sabermos que inevitável tangenciar um trabalho que já passou por nossos ouvidos e nos influenciou. Nesse caso, quando sentimos que estamos reproduzindo um clichê em algum elemento de uma música, fazemos o possível pra estragar tudo e transformar aquele elemento em algo que possa, inclusive, ser justamente o ponto (fora da curva) focal do ouvinte.Em casos em que gostamos do resultado redundante, clichê, simples, pouco criativo, acabamos deixando pra lá e tudo bem.

"Softspoken" está sendo pra mim um dos melhores discos nacionais do ano. Talvez pra mim o melhor da banda. Nele vocês parecem mais maduros, precisos tanto no peso do instrumental quando na linha melodica dos vocais. Vocês sentem isso também? Como se deu sua origem?

O Softspoken foi o disco mais difícil de terminar. Ele foi criado e recriado pra evitar o sentimento de falta de originalidade, por isso esses 4 anos desde o Mnemonic Syncretism. A gente sente essa maturidade, sim, mas não compreendemos isso como o ápice do que podemos fazer. O disco foi entregue por precisar ser entregue, pra que a gente pudesse seguir em frente, mas nós temos sempre a ideia de que pode fazer ainda melhor e melhor. O Softspoken nasce do fim do Mnemonic. É um frankendisco, um híbrido do que existia antes e do que é agora, mexido e remexido até que chegasse em um patamar que a gente considerasse aceitável. Por mais estranho que pareça, ele só foi tomar, de fato, um semblante, uma aparência mais consistente, nos últimos meses antes do lançamento ao longo destes 4 anos. A gente fica muito orgulhoso, é claro, quando alguém nos diz que acha um bom disco, ainda mais um dos melhores do ano (obrigado!!), mas nem sempre é fácil acreditar.

O disco vai sair em mídia física?

Sim! Nós planejamos lançar até setembro em cd. Gostaríamos bastante de fazer tiragens limitadas em K7 e em vinil, mas ainda não sabemos se será possível.

Por último, vocês acompanham os lançamentos nacionais ou internacionais de shoegaze/dream-pop/post-rock? Se sim, poderia indicar algum disco pra gente?

No Brasil, o último do Lava Divers, o "Plush", é fantástico e vale cada segundo. Outro grande disco que saiu por aqui agora foi o segundo (tenho quase certeza que é o segundo) do Electric LO-FI Seresta. De fora daqui, das últimas coisas que escutei, gostei bastante do "Sun", do Lilac e o "Queen of the Nebula", dos japoneses do Plant Cell. Das coisas ainda não lançadas esse ano, dá pra ficar de olho logo pra quando sair os novos do Airiel e Stargazer Lilies e dos brasileiros da Oxy e da Loomer.