Entrevista: Nosso Querido Figueiredo | MÚSICA CAFÉ

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Entrevista: Nosso Querido Figueiredo

Recentemente o Nosso Querido Figueiredo, o Matheus Borges, lançou seu mais novo trabalho chamado "Eu Não Estou Em Sintonia" publicado aqui no blog. Ele cedeu gentilmente uma entrevista falando um pouco mais sobre o disco, segundo ele um de seus preferidos, sua música e referências bem como sua visão sobre a cena alternativa tupiniquim. Foram dez perguntas feitas e dez respostas sinceras que você pode ler logo abaixo.

MC - Olá Matheus tudo bem? Pra começar a entrevista porque esse nome curioso, Nosso Querido Figueiredo?

NQF - Não sei se existe uma razão para esse nome, eu não lembro direito pra falar a verdade. Existe uma história de origem, é claro. Tudo começou quando eu vi alguém se referir a outra pessoa como “nosso querido xxx” e pensei que seria engraçado se alguém já tivesse essa expressão de afeto no nome. Depois, eu fiquei algum tempo tentando encaixar sobrenomes em “nosso querido” e parei no Figueiredo. Não sei como, não tem a ver com o presidente da república.

MC - Você já lançou dezenas de discos desde 2008. Quando você começou era esse o objetivo: lançar muitos discos em tão pouco tempo? E alguns deles saiu em formato físico? 

NQF - Quando eu comecei, não tinha muitos planos. Gravei umas músicas em 2008, um EP chamado “Fugere Urbem”, porque queria expressar aquelas coisas. São canções de raiva e de tristeza. No ano seguinte, eu estava mexendo nuns softwares e gravei umas coisas. Virou o primeiro álbum, “Let It F”. Até 2010, mais ou menos, as gravações são meio toscas porque eu estava mais brincando do que tentando fazer alguma coisa. Aí eu gravei um EP chamado “Volume 2”, que tem esse nome justamente porque eu estava inaugurando uma fase nova. Gravei umas cópias em CD, dei aos meus amigos. Mas foi só isso.

MC - Com relação as inúmeras composições: como elas surgem e qual o cuidado que você tem para elas não soarem repetitivas?

NQF - Não tomo cuidado nenhum para elas não se tornarem repetitivas. São muitas composições, então acabo repetindo algumas coisas, principalmente palavras ou cenas. Mas isso é bom, porque essas palavras adquirem outras formas, outros significados dependendo do contexto.



MC - Em seu novo álbum você pareceu mais ambicioso e o release do seu disco afirmava isso ao dizer que você gostaria que as músicas fossem um hit em potencial. Isso significa, indiretamente, um busca por um reconhecimento/visibilidade maior?

NQF - São hits em potencial. Isso quer dizer que eu tentei me ater à forma tradicional de canção popular. Mais porque eu me interesso por isso do que para buscar um público mais amplo. Se as pessoas querem ouvir, elas ouvem. Essa é a graça da internet, qualquer coisa é um hit em potencial.

MC - Como surgiu o título do disco "Eu Não Estou Em Sintonia"? Sintonia com o que?

NQF - Esse título é meio que a síntese de uma sensação. Deslocamento, isolamento, alienação. Clausura. Também se refere ao conteúdo do álbum – são canções que você não vai ouvir ao sintonizar o rádio em qualquer estação.

MC - Outro dia, logo no lançamento de "Eu Não Estou Em Sintonia", você disse que esse era um dos seus preferidos. O que o torna diferente dos outros tantos discos que você lançou?

NQF - É um dos meus preferidos, sim. Demorei muito tempo para compor, para elaborar os arranjos, para pensar no álbum todo. Foi muito fácil de gravar as vozes, eu já tinha uma intimidade gigante com as faixas. Mais do que com quaisquer outras nesse momento de produção. E o resultado final me agradou muito. As faixas têm vida própria e, quando somadas, funcionam muito bem. Queria que o álbum soasse como alguma coisa gravada há trinta anos e redescoberta recentemente no porão de um colecionador. Que tivesse uma energia latente, três décadas de abandono que te atingem de uma só vez. Gravei umas vinte e poucas músicas, demorei até chegar ao número treze. Estou muito satisfeito.

MC - O post-punk e a new wave são suas essências que você usou bem nos últimos dois discos. Por que escolheu essa sonoridade? Pode citar algumas bandas que você usa como referência nesses estilos?

NQF - Eu sempre fico meio que transitando entre gêneros, uma coisa meio pastiche, etc. Mas eu sempre me vi muito mais próximo do pós-punk. Até porque esse termo implica, entre tantas coisas, a variedade absurda de estilos que surgiram depois do punk e que acabam sendo uma coisa só. Até pastiche. Porque existe música pós-punk psicodélica, barroca, minimalista, disco. Eu gosto de interpretar o pós-punk como se fosse o próprio movimento punk tentando entender outras expressões. O “Eu Não Estou Em Sintonia” foi influenciado muito por essa ideia. Mas os artistas que mais me influenciaram durante o processo não foram apenas os desse período. Ouvi bastante Wire, mas também Prince, Flaming Lips e Belchior.

MC - O cenário alternativo, underground, lado b, como queira chamar, da música brasileira é sempre um assunto recorrente e nesses últimos anos ele tem ganhado cada vez mais visibilidade. Se pensas igual, o que você acha que fez com que isso acontecesse?

NQF - Isso demonstra o interessa das pessoas – do público em consumir, da imprensa em noticiar, do artista em produzir. O público consome primeiro o que é mais fácil de achar. Consome a Banda do Mar. Daí aumenta o interesse, procura novas referências e acaba consumindo Rafael Castro, Jair Naves. Quanto mais interesse, mais fundo o cara vai, até chegar ao fundo mesmo, ao Figueiredo. A imprensa percebe esse interesse, acaba por noticiar mais coisas para suprir essa demanda. Os artistas se descobrem em um momento propício, com ferramentas democratizadas e baratas de produção. Podem enviar eles mesmos um e-mail para a Pitchfork. Tudo isso é favorável.

MC - Quais suas perspectivas para o futuro?

NQF - Ainda não sei. É a primeira vez que lanço algo novo sem ter o sucessor já em andamento. Muito curioso. Libertador, também.

MC - Pra encerrar, sugira um disco nacional e um internacional que tem a aprovação do Nosso Querido Figueiredo.

NQF - Vou me ater a coisas recentes. Entre os nacionais, preciso citar dois álbuns desse ano que me tocaram profundamente: “Fortaleza”, do Cidadão Instigado, e “Existe Alguém Aí?”, do Wander Wildner. Dos estrangeiros, o último do Sun Kil Moon, “Universal Themes”.



Outra entrevista:
- Aline Lessa (clique aqui)

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