Entrevista: Aline Lessa | MÚSICA CAFÉ

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Entrevista: Aline Lessa

Nos últimos anos no cenário nacional tem aparecido novos e bons artistas que vem mantendo com seus discos a produtividade de uma safra que continua dando bons frutos. A lista de Melhores Discos Nacionais do ano passado foi um pequeno apurado disso que serviu para elencar numa ordem preferencial discos dignos de serem apreciados numa cena cada vez mais heterogênea e que se aprimora a cada disco lançado.

Esse ano já estamos chegando quase no final do primeiro semestre e temos muitos trabalhos nacionais publicados aqui no blog, part.1 e part.2, e dentre eles um dos meus preferidos, o disco solo da Aline Lessa (download). Daí, seguindo a sugestão do Marcos Xi, editor-chefe do Rock In Press, resolvi fazer a primeira entrevista do blog perguntado pra ela, ex tecladista da Tipo Uísque, sobre o disco, influências, visão do cenário atual quanto à projeção de novos artistas na mídia e perspectivas para o futuro. É isso! Abaixo você confere a entrevista completa.

Meus agradecimentos a Xi e Lessa! 

MC: Bem, é comum em entrevistas perguntar ao artista/banda que bandas ele gosta de ouvir. Sendo assim, quais suas bandas preferidas?

AL: Sou muito eclética e tenho uma certa dificuldade em dizer quais são as minhas bandas/artistas preferidos. Posso citar alguns daqueles que de alguma forma foram importantes na minha formação musical: The Beatles, Radiohead, Elliott Smith, Chico Buarque, Adriana Calcanhotto, dentre muitos outros! Mas penso que tudo o que ouvimos, queiramos ou não, acaba nos influenciando.

MC: A nova MPB, como muitos tem chamado os novos artistas desse meio, tem sido um campo fértil e que tem dado bons frutos ultimamente como Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, Tiê, Céu, Tiago Iorc, entre outros, com discos que lhes renderam merecidos elogios. O cenário no momento parece promissor pra você?

AL: Sem dúvidas. Andam dizendo por aí que a MPB não é mais a mesma, que a MPB morreu, que a MPB está fadada ao fracasso... E eu discordo. Acho que o que acontece hoje é que como qualquer pessoa pode se autodeclarar artista, gravar seu disco e divulgar sem precisar tanto das grandes mídias, o papel de seleção fica nas mãos do ouvinte e às vezes fica difícil chegar ao que é realmente bom em meio a uma oferta tão grande. Mas o que eu vejo hoje é muita gente talentosa fazendo coisa boa e - o que é mais legal - um público interessado em música de qualidade.

MC: A criação de um disco é um negócio bem particular de cada artista. O que te inspirou nas composições e em dar tom e voz ao seu primeiro disco, autointitulado? E que retorno você espera?

AL: Compor, pra mim, sempre foi muito mais uma necessidade do que uma vontade. As músicas desse meu primeiro disco retratam momentos diferentes da minha vida. Busco inspiração nas minhas próprias dores e escrevo pra expressar o que não consigo dizer de outra maneira. O retorno que eu esperava com esse lançamento era não mais do que o que eu já venho recebendo: Pessoas escutando, se identificando e se emocionando com o trabalho.

MC: Disponibilizar um disco pra download gratuito e compartilhar nas redes sociais, sem falar nos blogs que publicam o material, tem sido um meio eficaz para divulgação de um trabalho, porém o CD físico acaba sendo dispensado por alguns que optam apenas pelo formato digital. Há uma dificuldade nisso? O acesso ao download gratuito e streaming de música tem uma influência negativa quanto as pessoas comprarem o disco ou a cultura de comprá-los está desaparecendo cada vez mais? E melhor, irás lançar seu disco em CD e vinil?

AL: Eu particularmente já entendi e aceitei que lucrar com a venda de CDs, DVDs e vinis hoje em dia é pra poucos, ainda mais quando se trata de um artista novo. Eu gosto muito da ideia de facilitar o acesso à arte - e o streaming me parece a forma mais eficaz e direta de se chegar ao público. Pretendo fazer uma tiragem mínima do álbum físico, com um material gráfico diferenciado, muito mais para ver a obra concretizada e palpável que para tentar capitalizar em cima de vendas.


MC: No seu álbum, gostei muito da faixa "Para Luciana" parece uma cantiga de ninar para adultos (risos). Os arranjos dele são belíssimos e traduzem uma espécie de melancolia sofisticada bem retratada também na capa do disco. Como você o descreveria?

AL: Cada música teve um processo particular de arranjo. Em "Para Luciana", por exemplo, o Elisio (Freitas - que produziu o álbum comigo) concebeu o arranjo e gravou todos os instrumentos. Em várias outras faixas pensamos os arranjos juntos, gravando a maior parte dos instrumentos. Quando havia necessidade, convidávamos eventuais participações. É difícil descrever ou classificar um disco que traz tantas influências diferentes; por isso não me incomoda o termo - hoje tão polêmico - MPB.

MC: A MPB é a essência principal do disco e você parece flutuar em Lábia, mas é possível sentir o rock sutil marcar as melodias de Manhã, Meu Bem e Por Fim o que enriquece a obra. O rock é outra parte essencial pra você?

AL: O Rock foi o estilo de música que mais escutei na minha adolescência (quando digo Rock, incluo as mais variadas subclassificações do estilo). Hoje tenho escutado também outros estilos de música, o que não inclui apenas MPB. Costumo brincar dizendo que a rebeldia do Rock me coube muito bem na adolescência, mas chegou um momento em que eu percebi que gritar talvez não seja a melhor maneira de se fazer ouvir (risos). Mas é natural que tudo que eu faça traga alguma influência de rock, o que pra mim é muito positivo. 

MC: Hoje a mídia televisiva tem procurado por meio de vários programas novos artistas que tenham um alcance nacional e o tempo tem mostrado que o sucesso das bandas vencedoras é efêmero. Como você encara esses programas e a chance de bandas independentes do cenário brasileiro ganharem uma repercussão maior, quem sabe, ganhando o programa?

AL: Eu não tenho dúvida de que esses programas são ótimas vitrines para que uma banda mostre seu trabalho ao grande público. Acredito que o que determina se o sucesso da banda será duradouro ou efêmero é a própria qualidade do trabalho aliada a muita dedicação após a exposição. Em contrapartida, é latente a tendência de tais programas em colocar em posição de destaque artistas pouco distintos e que não tragam nenhuma ameaça aos padrões estético-musicais previamente determinados pela própria indústria de massa, já que ela é responsável inclusive por tais programas. É natural que, para que haja outras edições desses programas, as bandas que se destacaram antes não se mantenham relevantes no panorama, para que possam ser rapidamente substituídas. 

MC: Apesar de ter lançado seu primeiro agora, já tens alguma perspectiva pro futuro?

AL: Sim. Eu não consigo parar de produzir, fico ansiosa (risos). Já estou pensando nos primeiros clipes, nos primeiros shows e até no próximo disco.

MC: Por último, se tivesse que indicar dois discos para nós quais seriam? 

AL: Eu indico o Careless Love, da Madeleine Peyroux e o XO, do Elliott Smith. Os dois discos, apesar de muito diferentes em questão de produção, são intensos e sutis ao mesmo tempo, o que me cativa muito.

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