7 de setembro de 2017

Resenha » Maglore - Todas as Bandeiras (2017)

Está precisando ouvir um disco nacional que cause uma boa impressão logo de cara sem muito invencionismo? O quarto disco da Maglore, "Todas as Bandeiras", pode ser uma boa pedida pra você.

Os baianos entregaram um disco pronto para ser consumido sem obstáculos equilibrando sua brasilidade na veia roqueira tendo o pop como elemento acessível ligando as vertentes e improvisos da banda. Isso sem contar com as letras fáceis de cantar.

As três primeiras faixas, Aquela Força, Todas as Bandeiras e Clonazepam 2mg, já mostram isso logo de cara divertindo a gente. Apesar de termos aqui um disco em boa parte homogêneo, mantendo a mesma pegada, é possível encontrarmos alguns contrastes como a faixa Hoje Eu Vou Sair com guitarras eufóricas distorcendo a linearidade construída até o momento e Quando Chove no Varal trazendo o sossego na melodia e nos vocais.

A Maglore apostou numa fórmula simples de fazer músicas que grudassem com facilidade, porém sem soar algo muito forçado. É assim em Me Deixa Legal, Eu Consegui, Calma e na mais regionalista/dançante de todas, Jogue Tudo Fora. Na última faixa, Valeu, Valeu, a Maglore sugere um "axé roqueiro" com um jogo de guitarras empolgadas.

"Todas as Bandeiras" é um disco satisfatório feito pra muita gente ouvir além do nicho austero independente.

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26 de julho de 2017

Resenha » Vitor Colares - Fotografia de Rachadura (2017)

Vitor Colares é o representante cearense do tal rock triste ou talvez da nova mpb com uma vertente entristecida e "Fotografia de Rachadura" é seu mais novo disco, o segundo lançado esse ano.

Por trás do silêncio pode haver muito barulho pertubando nossa cabeça. Segredos, medos, dores, desejos, revolta. Em "Fotografia de Rachadura", Vitor Colares exprime tudo isso sem nos poupar de nada.

O álbum de oito faixas traz um som ambiente, caseiro, e relatos criados por ele para dar voz as melodias taciturnas que ecoam pela obra. Logo de cara em "memorando", vemos um cantor sentado numa cadeira, com perna cruzada, dedilhando seu violão com olhos fechados expondo seus sentimentos sobretudo honestos.

"tempestades tropicais" é aquela música que te acompanha quando você está no fundo do poço e de repente sons experimentais começam a querer gritar por você. A tentativa de uma reabilitação encontra-se na boa "nictografia" - significa arte de se escrever às escuras ou sem fazer uso da vista - com repeditas menções de "eu te daria tudo...".



Domado pela melancolia, Vitor nos entrega "fugere" - fugir - tal como uma marcha fúnebre conduzida pelo violão e sintetizadores. Tamanha é a tristeza que pode levar a pessoa a loucura, a sair de si, e em "ecdise" o músico pega emprestado o termo, que significa mudança de exosqueleto, para referênciar as mudanças de estado e som que se passa na música. 

Vitor Colares é um sujeito reflexivo. Em "antessala" ele faz uso do recurso spoken word para declamar seus pensamentos. Aqui a libertação está no desabafo. Pra encerrar o disco, "do refluxo" captura sons aleatórios e "epílogo" finaliza com mais citações como se Colares recobrasse a consciência depois de tudo e contasse o que aconteceu.

Para digerir "Fotografia de Rachadura" é necessário imergir na mente de seu autor. É durante esse processo que o disco se torna compreendido e sincero.



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17 de julho de 2017

Resenha » Jovem Palerosi - Ziyou (2017)

É legal quando conseguimos agregar algo novo ao nosso conhecimento de mundo. Nas andanças por aí nos deparamos com um mar de informações e as filtramos para ampliar nossa experiência de causa enquanto vai surgindo novas possibilidades.

O músico Jovem Palerosi parece entender bem esse processo e seu segundo álbum solo, "Ziyou", traz à tona sua vivência no centro da música eletrônica instrumental e suas experiências sensoriais. 

"Ziyou" vem do chinês que significa Liberdade - é também o nome do bairro onde ele mora em São Paulo - e o espírito livre do músico o permite entrar e sair de suas próprias influências de modo a deixar seu disco equilibrado. A cultura oriental em seu trabalho é um segmento forte que percebemos logo de cara em Ni Hao e Moseley Road, porém ela vai se diluindo de modo a ficar mais sutil durante o disco. É como se Palerosi nos levasse da China ao espaço sideral de uma música pra outra tal como em, 798, Auréolas e Chinateawn.

Os sintetizadores sinestésicos criam ambientações intimistas que contribuem para que o ouvinte sinta sua música de forma mais instrospectiva. As três últimas faixas do álbum, Arpegg Dream, Mercúrio 3.1 e Khayyam trazem essa experiência de um jeito mais étero, flutuante.

Um som com um toque exótico, transcendental e curiosamente bom. "Ziyou" saiu pelo selo Tropical Twista Records de São Paulo.



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11 de maio de 2016

Resenha » Jonathan Tadeu - Queda Livre (2016)

A carreira solo do Jonathan Tadeu, ex membro das bandas Quase Coadjuvante e Lupe de Lupe, começou despretensiosamente em alta quando ele lançou seu debut, "Casa Vazia", ano passado rendendo boas críticas ao músico - inclusive ele foi um dos destaques na lista dos Melhores do Ano aqui no blog.

Não demorou muito para que o mineiro continuasse suas andanças pelas beiradas musicais e chegasse a seu segundo disco chamado "Queda Livre" ainda com o simples pensamento de cantar e tocar sobre sentimentos. Se "Casa Vazia" apresentava algo de esperançoso com picos de alegria podemos dizer que "Queda Livre" é o contraponto entristecido do Jonathan Tadeu expresso nas letras e melodias. A faixa que inicia o álbum, Quase, é um registro honesto de um romance que não vinga mais e dar lugar ao desabafo mediante uma guitarra visceral que ajuda a externar aquilo que está preso por dentro.

"Eu juro por deus
Que eu me esforço
Mas não posso deixar você
Esperando a saudade nascer em mim." 

Consciente de que usa a música como um instrumento de reflexão, Jonathan filosofa sobre relacionamentos quando diz em Ninguém Se Importa: "Sozinho eu faço tanto estrago. Com você é que eu durmo em paz. E já são tantas noites que eu nem sei se isso que a gente tem é conforto ou conformismo." Introspectivo, o músico segue meditando sobre si mesmo e seus feitios de forma sorrateira embalado por uma guitarra que ressoa harmonicamente à sua frente em Diana Ross que, curiosamente, cita outra faixa do músico, Whitney Houston, do álbum "Casa Vazia".



A faixa que talvez seja a mais lamuriosa introduzida com uma melodia sadcore é Queda Livre que rasteja em sua metade e depois dá gritos de desesperos com os riffs de guitarra. O que vem na nossa mente é que Jonathan Tadeu se passa por um romancista que após um rompimento se martiriza ao relembrar de diálogos e encontros passados tal como registrados na sequência com La Greppia e Sorriso Besta. Outro momento em que a melancolia é acentuada é na faixa Bastardo de uma estrofe só. 

O lampejo de sobriedade fica marcado em pouco menos de um minuto na faixa Amour de mensagem simples, porém poderosa: Mesmo que eu nunca acorde desse sonho ruim Eu te amo até o fim. Apesar de tudo o desapego é uma ação emergencial que Jonathan Tadeu prefere não tomar ainda, do contrário, age de forma passional ao insistir em um desejo errado em Ato Falho. Não restam dúvidas que "Queda Livre" trata-se de um disco sentimental onde seu criador traça uma história divididas em 10 partes e aponta para algo pessoal na última música O Mundo É Um Lugar Bonito e Eu Não Tenho Mais Medo de Morrer onde, através do recurso spoken word, Jonathan parece resumir um pouco de sua vida.

Com uma sonoridade lo-fi que relembra os anos 90 da guitarra do Yo La Tengo a melodia da Carissa Wierd, Jonathan Tadeu explora o poder de suas composições para fazer um disco honesto onde a música final reflete com dignidade aquilo que se sente e o que se pensa em alta qualidade.

★★★★☆

"Queda Livre" foi lançado ontem dia 10 de Maio.
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22 de março de 2016

Resenha » Baleia - Atlas (2016)

A famosa síndrome do segundo disco é justificada quando a banda lança um primeiro trabalho maravilhoso, livre de qualquer expectativa criada vinda de fora, trazendo aquele gostinho de algo despretensioso e logo depois, quando vem o segundo, já com a perspectiva de vir algo bom, nos deparamos com um disco abaixo do esperado e, ao invés de confirmar o boom criado no começo, a decepção é o sentimento que prevalece após a desaprovação.

E sobre isso posso dizer que a banda Baleia passou com êxito em seu segundo registro, "Atlas", quase três anos após lançar seu debut, "Quebra Azul". Dois singles, Volta Estrangeiro, antecederam o lançamento do seu novo disco e, se a primeira impressão é a que fica, a Baleia demonstrou não ter receio de continuar mostrando sua identidade, sem apego de gênero, aumentando ainda mais a ânsia de ouvi-los novamente.

A euforia bate em nosso ouvido logo de cara com a primeira faixa, Hiato, nos proporcionando um caleidoscópio pop e seus efeitos sonoros validando a pressuposição de um disco maravilhoso. Para a Baleia zona de conforto parece algo opcional, pois a reinvenção faz mais sentido do que andar num linha única mesmo que se consiga fazer algo de regular a bom e é ai que vemos em Duplo-Andantes a capacidade deles de criar algo que vai de um lapso psicodélico, a um rápido segmento regional alternando com a tal nova mpb de batida percussiva.



Não é à toa que sua sonoridade seja adjetivada como original. Triz (Ida) carrega um lirismo que parece vir de um período antigo, clássico ou medieval, transformando a música em algo teatral, encenado, onde os instrumentos modulam o tom grave impulsionando a banda para o ápice. A já conhecida Volta, pegando o embalo da anterior, tem um plano de fundo quase épico com tambores e bateria introduzindo a faixa para posteriormente o violino e guitarra engrandecerem o momento.

Até aqui chegamos na metade do disco que só tem oito faixas, a mesma quantidade do "Quebra Azul". Logo em seguida vem a outra prévia lançada, Estrangeiro, outro pilar colocado de forma bem estratégica no meio do disco junto a Volta. A faixa começa de forma descontraída o que pode nos enganar quando percebemos o rumo sério que ela vai tomando ao encontrar a harmonia de um instrumental polido criando cenários distintos.

Há mais caprichos e ambição em "Atlas" que o diferencia de "Quebra Azul". Talvez isso fique mais evidente nos efeitos das melodias, ambientações e na percussão que ganharam uma expressão maior vide a faixa Língua. Independente disso trata-se de duas obras acima de média que tornam o lado b brasileiro ainda mais atraente e esse ano o novo disco da Baleia tem uma bom participação nisso. A maneira como as músicas evoluem causam essa impressão como a melodia de Véspera que começa numa leva mpb, embalada pela voz de Gabriel Vaz, e se projeta num post-rock orquestral ao fundo sutilmente. A última faixa do disco, Salto, tem um elo com a primeira, Hiato, que interliga todo o disco com uma pegada mais frenética e uma carga roqueira mais precisa que deixa o álbum coerente do começo ao fim. 

As quatro primeiras faixas do disco é comandada pelos vocais de Sofia Vaz e as quatro últimas por Gabriel Vaz, curiosamento algo bem articulado que causa sensações diferentes. Ambos dão conta do recado incorporando o ritmo das músicas em seus vocais tornando elas ainda mais envolventes.

Se o "Quebra Azul" cumpriu bem seu objetivo de projetar a banda, "Atlas" é o salto da Baleia para a consagração com o potencial de alcançar um público ainda maior.

Nota: ★★★★★



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