28 de agosto de 2017

Entrevista: The Sorry Shop

O Música Café (Moisés Lima) conversou com o Régis Garcia da banda The Sorry Shop que recentemente lançou seu terceiro disco, o ótimo "Softspoken". Confere abaixo o que o músico falou sobre a banda, o novo disco e de quebra algumas dicas pra gente ouvir depois. Gratidão!

Como se construiu a identidade sonora de vocês?

Sabe quando você vai na geladeira e tem um monte de sobras e você coloca tudo em uma omelete? É mais ou menos isso. A identidade sonora da The Sorry Shop é uma mistura de uma porção de coisas que esfriaram, que não estiveram sempre visíveis. Quando nós começamos a pensar em gravar as primeiras coisas, o Yuck, banda inglesa que veio no inicio de um novo momento do shoegaze/dream-pop,estava apresentando o primeiro disco. A genética deles orientou muito a nossa (re)constituição sonora. Veio muito do que, especialmente, eu e o Marcos ouvimos nos anos 90, como Built to Spill, Dinosaur Jr, Pavement e, é claro, as coisas mais afundadas em reverb. A partir desse resgate de boas recordações musicais, começamos a planejar as coisas da The Sorry Shop com uma estética bem lo-fi, que não foi abandonada, mas foi sendo lapidada e ganhando novos contornos, em especial com a volta ao estúdio de bandas como Slowdive, Ride e MBV. O que fazemos hoje, em especial no Softspoken, é uma mistura do que a gente ouvia quando mais jovem com o que foi aparecendo ao longo do tempo com a mesma estética. Não é inovador, não é nada que não tenha sido feito antes, mas nessa genética nova tem também nosso DNA, o que já nos deixa bem satisfeitos.

Uma pergunta de praxe: porque as letras em inglês? Soa mais fácil cantar em inglês devido o shoegaze?

Eu não tenho certeza se "mais fácil" seria o termo mais adequado para explicar isso, mas definitivamente é mais confortável. Pra ser muito honesto, em momento algum tentamos escrever letras em português para as músicas da The Sorry Shop. É, talvez, parte de uma herança musical, sabe? Não vimos necessidade de pensar em fazer diferente, em especial por considerarmos que o inglês, de maneira geral, é mais acessível (ou popular) que a língua portuguesa não só para esse nicho específico, mas para o público global que tipicamente tem interesse nessa estética.

O shoegaze e derivados tem um público bem específico, porém bastante fiel. Aqui no Brasil não é diferente. Existe um objetivo por trás de cada lançamento de buscar ampliar esse público paralelo a uma visibilidade maior?

Talvez não haja necessariamente o objetivo, mas sempre há uma expectativa de ampliar o público. Contudo, posso dizer com certeza que quanto mais fazemos algo que nos deixe musicalmente satisfeitos, menos interesse do público vamos tendo. O primeiro disco da The Sorry Shop é um grande orgulho pra gente, mas dificilmente seria composto hoje depois de encontrarmos nossos timbres, batidas e por aí vai. O Bloody, Fuzzy, Cozy é um disco mais acessível, creio eu. O Softspoken nem tanto. A quantidade de camadas, a mixagem, as escolhas estéticas vão cada vez mais pra longe do que eu compreendo como popular (apesar de não achar de forma alguma que o disco é experimental ou ainda qualquer coisa chocante/extrema). Não que o Softspoken não tenha extrapolado (em números que a gente consegue ver, mesurar) o Bloody, mas a gente sente que a resposta do público geral é mais amena. Nesse sentido,gostaríamos da visibilidade, mas sabemos que o oposto pode acontecer e estamos tranquilos com isso.



O estilo tem seus desafios pois tem uma base fechada que pode dificultar, aparentemente, agregação de novos valores sonoros. A banda tem esse cuidado de fugir da redundância?

Sim e não. Sim por tomarmos cuidado pra evitar clichês, em especial aqueles que já foram massacrados com o tempo. E não por sabermos que inevitável tangenciar um trabalho que já passou por nossos ouvidos e nos influenciou. Nesse caso, quando sentimos que estamos reproduzindo um clichê em algum elemento de uma música, fazemos o possível pra estragar tudo e transformar aquele elemento em algo que possa, inclusive, ser justamente o ponto (fora da curva) focal do ouvinte.Em casos em que gostamos do resultado redundante, clichê, simples, pouco criativo, acabamos deixando pra lá e tudo bem.

"Softspoken" está sendo pra mim um dos melhores discos nacionais do ano. Talvez pra mim o melhor da banda. Nele vocês parecem mais maduros, precisos tanto no peso do instrumental quando na linha melodica dos vocais. Vocês sentem isso também? Como se deu sua origem?

O Softspoken foi o disco mais difícil de terminar. Ele foi criado e recriado pra evitar o sentimento de falta de originalidade, por isso esses 4 anos desde o Mnemonic Syncretism. A gente sente essa maturidade, sim, mas não compreendemos isso como o ápice do que podemos fazer. O disco foi entregue por precisar ser entregue, pra que a gente pudesse seguir em frente, mas nós temos sempre a ideia de que pode fazer ainda melhor e melhor. O Softspoken nasce do fim do Mnemonic. É um frankendisco, um híbrido do que existia antes e do que é agora, mexido e remexido até que chegasse em um patamar que a gente considerasse aceitável. Por mais estranho que pareça, ele só foi tomar, de fato, um semblante, uma aparência mais consistente, nos últimos meses antes do lançamento ao longo destes 4 anos. A gente fica muito orgulhoso, é claro, quando alguém nos diz que acha um bom disco, ainda mais um dos melhores do ano (obrigado!!), mas nem sempre é fácil acreditar.

O disco vai sair em mídia física?

Sim! Nós planejamos lançar até setembro em cd. Gostaríamos bastante de fazer tiragens limitadas em K7 e em vinil, mas ainda não sabemos se será possível.

Por último, vocês acompanham os lançamentos nacionais ou internacionais de shoegaze/dream-pop/post-rock? Se sim, poderia indicar algum disco pra gente?

No Brasil, o último do Lava Divers, o "Plush", é fantástico e vale cada segundo. Outro grande disco que saiu por aqui agora foi o segundo (tenho quase certeza que é o segundo) do Electric LO-FI Seresta. De fora daqui, das últimas coisas que escutei, gostei bastante do "Sun", do Lilac e o "Queen of the Nebula", dos japoneses do Plant Cell. Das coisas ainda não lançadas esse ano, dá pra ficar de olho logo pra quando sair os novos do Airiel e Stargazer Lilies e dos brasileiros da Oxy e da Loomer.


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20 de agosto de 2016

Entrevista: Subcelebs

Alinne Rodrigues, Igor Miná, Eric Catunda e Nyelsen B são as subcelebridades da vez aqui nos arredores de Fortaleza. Eles formam a Subcelebs, banda que lançou ano passado seu primeiro EP, homônimo, um registro de quatro ótimas faixas esbanjando um pop cheio de distorções e ruídos.

O Música Café aproveitou a vizinhança e entrevistou o guitarrista Igor Miná acerca da banda, do primeiro EP, da cena em Fortaleza, dos serviços de streaming e outras coisas mais. Confere aí abaixo. Desde já gratidão e sucessos a banda.

MC: Como vocês se definiriam?

Igor: Indie pop com um pouco de noise.

MC: Vocês começaram a carreira como Telerama e depois que a banda acabou você e a Aline começaram um projeto chamado Banda Desenhada logo após veio a Subcelebs. O que mudou desde a Telerama para a atual Subcelebs?

Igor: Na época da Telerama, a gente era muito novo e, como todo mundo que começa a fazer música, ainda estava descobrindo que tipo de som queria fazer. Por isso a Telerama tem músicas que se encaixariam até em gêneros diferentes se a ideia é classificar. Com a Banda Desenhada, a gente mergulhou no twee pop e chegou a entrar em coletâneas internacionais com bandas do estilo. Agora, mais de dez anos depois de termos começado a tocar, continuamos gostando de fazer música bem melódica e assobiável, mas quisemos trazer pra Subcelebs uma sujeira que os outros projetos não têm e, apesar de continuarmos compondo em português, nosso som têm cada vez menos elementos tipicamente brasileiros – ou essas influências agora aparecem de forma menos óbvia, mais diluídas. E estamos mais leves nas temáticas. Estamos mais preocupados em nos divertir compondo e tocando.

MC: A cena independente no Ceará mudou muito pra vocês ao longo do tempo? Há movimento?

Igor: Sim. E há muito movimento, vindo de todos os lados, o que é ótimo. Hoje a gente tem um estúdio e um selo, a Mocker Discos, e já lançou vários novos artistas diferentes e muito legais. Estamos envolvidos também em diferentes iniciativas voltadas ao fortalecimento do mercado de música local, como o Projeto Circuladô e a Musicoletiva.



MC: Vocês se arriscariam a participar em um desses programas de televisão como o Superstar? O que pensam sobre ele?

Igor: Não. E acho que nem seja questão de arriscar, mas de ter interesse ou não no que o programa traz. Pra gente, esse modelo de mega-astro, lançado por major e com música na novela, já não faz muito sentido. Já faz muitos anos que a gente consome prioritariamente música independente, feita por artistas pequenos lançados por selos pequenos, mas com carreiras perfeitamente sustentáveis. É nisso que a gente acredita e se foca hoje.

MC: Há uma discussão a cerca dos serviços de streaming e a remuneração dos artistas. Como vocês encaram o uso desses serviços?

Igor: Nós achamos ótimo que eles existam, porque colocam na mesma playlist artistas independentes e artistas consagrados, ao contrário de plataformas específicas para artistas indies, como o Bandcamp e o Soundcloud – que, claro, têm o seu valor, tanto que também disponibilizamos tudo por lá. Sobre remuneração, muito dessa polêmica parte de artistas enormes, que surgiram em outro momento da indústria ou se encaixam no modelo tradicional, como o Radiohead. Realmente, ganhar frações de centavos por play é pouco para quem estava acostumado a ganhar muito mais do que isso com execuções em rádio e TV – mas não essa nunca foi nem será a realidade de artistas independentes, então não vejo muito sentido em se rebelar contra isso quando se é um desses artistas. Os benefícios de estar nesses serviços são maiores do que as perdas. Por outro, é sabido que todos esses serviços operam no vermelho, com muita gente investindo esperando um dia ter retorno. Se mais pessoas optassem por assinar os serviços, esse retorno seria mais rápido para os artistas, selos e investidores. Acho que o maior desafio para todos ainda é fazer o público da era digital entender que é importante pagar por música.

MC: No EP que vocês lançaram o som está bem mais garageiro, cheio de ruídos, despojado, diferente do pop chiclete de antes. Pode citar algumas referências do EP? Como foi a criação?

Igor: Pavement, Pixies, Yuck, Yo La Tengo… Enfim, bandas velhas e novas que não ligam muito se o som está caseiro demais ou distorcido demais. Limpeza, definitivamente, não é uma das prioridades da Subcelebs. O EP foi todo produzido no nosso estúdio, o Mocker, que é também a nossa casa. Bateria, baixo, synth e as bases de guitarras foram feitos ao vivo, porque queríamos essa atmosfera. Depois complementamos com os vocais e overdubs de guitarra.

MC: Indica aí pra nós dois lançamentos desse, um nacional e um internacional.

Igor: Eu indico o do Kurt Vile, "b'lieve i'm goin down" e o "Paraleloplasmos", do Lê Almeida.
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28 de abril de 2016

Entrevista: Bia e os Becks

A terceira entrevista que acontece no Música Café é uma banda que já apareceu aqui no blog como indicação, a Bia e os Becks de Teresina - Piauí. Na ocasião eles tinham recém lançado seu primeiro EP chamado "Conto Amor trazendo uma mistura de mpb e soul com uma pitada de regionalismo.

Esse ano a banda apresenta seu mais recente EP "Todo Lascado" com quatro músicas inéditas e download gratuito. O Música Café entrevistou o guitarrista Mário Araújo que falou um pouco sobre a sonoridade do grupo, produção do novo trabalho e da cena piauiense. Confira logo abaixo.

MC: Como surgiu a Bia e os Becks? E de lá pra cá como vocês se enxergam hoje? Mudou muita coisa?

MA: A banda surgiu em 2012 em Teresina, ela foi fruto (como não poderia deixar de ser) da união de amigos em comum que já tocavam em outras bandas da cidade, no caso o Ramon Rodrigues (baixo), Rafael Franco (percussão), Mário Araújo (guitarra) e a Bia, que acabara de entrar nesse mundo de bandas e música, no sentido de ter banda e fazer shows. A Bia tinha algumas músicas de sua autoria e me convidou pra fazer alguns arranjos pra ela que iria se apresentar num sarau de poesia...e a partir daí foi um pulo pra gente inserir o Rômulo Vieira (bateria) pra fechar o time e começar a amadurecer a ideia. De lá pra cá a banda já mudou de baixista duas vezes, o primeiro foi o Luiz Wagner, que nem chegou a fazer um show mas teve papel importante por ter gravado os baixos do nosso primeiro EP/demo “Conto Amor”, e atualmente temos o Lucas Coimbra nesta função. Além disso após o resultado do nosso segundo EP inserimos o Cássio Carvalho nos teclados. Hoje somos uma banda mais madura, mas que ainda é bem jovem e está aprendendo bastante com os caminhos da vida haha.

Ouça a faixa "Ressaca" do EP "Conto Amor"

MC: Normalmente bandas que lançam um EP demonstrativo partem, logo em seguida, em busca de lançar o primeiro disco cheio. Vocês, porém, preferiram lançar outro EP. Porquê? Esperam um momento ideal pra lançar o primeiro álbum?

MA: O primeiro EP na verdade é bem mais como uma demo, ou um teste de como a banda poderia soar. Eramos bem imaturos musicalmente e no fim das contas é um trabalho que hoje sinto que poderia ter sido bem melhor explorado em termos de arranjos e timbres. Mas enfim, esse não é o motivo principal por rolar o lançamento de um segundo EP, o motivo principal é: falta de grana! hahaha É bem mais fácil produzir um disco hoje em dia, claro, mas ainda precisamos da grana pra isso....e geralmente não é barato. Então resumindo, dois motivos para lançar um segundo EP: a banda está mais consistente e a sonoridade melhorou consideravelmente em relação ao primeiro o que nos fez optar por lançar como algo novo, e segundo: ainda estamos levantando recursos pra um full album hehe

MC: Apesar da proposta da banda de se enquadrar na dita nova roupagem da mpb eu diria que existe algo a mais. Talvez alguma coisa de soul, funk e até um pincelada no jazz tanto nos vocais como nas melodias. Ouvindo o novo EP "Todo Lascado" essas referências pareceram mais presentes. É por aí o caminho?

MA: Sim! Você está corretíssimo. Isso tudo faz parte de nossas influências em geral, claro. Acho que esse é o ponto central do nosso trabalho e de tantas outras bandas, justamente essa mistura, esse passeio por tudo que nos toca de alguma maneira.



MC: Os arranjos das faixas estão bem enriquecidos e mostram a versatilidade da banda bem como reflete a boa produção. Sobre isso, como foi a produção do EP?

MA: O EP foi produzido por nós junto com o João Paulo Araújo, o nosso “sétimo beck” hahaha, inclusive tem o dedo dele em algumas composições como Ardor Amor em parceria com a Bia e Síndrome de Câncer que é de autoria dele. As composições vieram de várias formas... Ardor Amor era só voz e violão, ganhou toda aquela cor com os arranjos do Lucas Coimbra, Burlesca já rolava em alguns shows mas com aquela sessão de metais feita pelo arranjador Wiltenberg Rodrigues a música ganhou imponência e a sofisticação que ela sugere, é sem dúvidas uma das minha favoritas. Síndrome de Câncer também já rolava ao vivo e foi a que menos sofreu mudanças em relação a estrutura, mas ganhou muito em timbres e riffs de guitarra, linha de percussão e bateria.... além dos emblemáticos “hm, que foi bicha?” e “valheu valheu” que rolaram durante as gravações e a gente resolveu manter hahaha... Já Trejeitos é um tributo a nossos amigos da banda Alcaçuz, que encerrou suas atividades este ano aqui em Teresina, é de autoria do brother Pedro Ben e é sem dúvidas uma banda que merece ser ouvida. Nela fizemos um lance mais eletrônico com muito teclados, sintetizadores e bateria eletrônica além de transformar a letra, antes um monologo, em um diálogo entre um casal. No geral ficamos muito satisfeitos com o resultado final de tudo, e com certeza é por esse rumo que todos os nossos futuros trabalhos devem seguir.



MC: É natural que toda banda queira ter seu trabalho reconhecido seja por muitos ou por poucos, porém fiéis seguidores. Qual tem sido o impacto das redes sociais e as plataformas de streaming sobre a banda?

MA: O impacto está sendo o melhor possivel! Percebemos que os novos ouvintes estão cada vez mais se interessando pela banda e aparecendo mais nos shows, os nossos amigos/fãs/seguidores mais antigos também sentiram uma evolução natural no som da banda e continuam nos apoiando cada vez mais. Isso tudo se reflete nas performances, pré-produção de shows, nossa presença nas midias locais de maior alcance como rádio e tv e no nosso sentimento de dever cumprido :)

MC: A cena local é favorável para música autoral ou o eixo sul-sudeste parece mais promissor?

MA: Ai chegamos num ponto bem delicado hahaha este é um assunto recorrente e até saturado nos debates dos músicos de Teresina, mas acredito que seja também em diversas outras cidades. Bem, ainda há muito o que se fazer em nossa cidade em relação a formação de público, jornalismo cultural, e o próprio amadurecimento das bandas. Produção é o que não falta, mas parece que tudo é meio mal aproveitado...Não acredito que o eixo sul-sudeste seja mais promissor, na verdade deve ser bem mais dificil! Imagina a quantidade de bandas boas, muito boas mesmo, disputando a atenção de um público que a cada dia é cada vez mais bombardeado por tantas músicas de tantos lugares...acho que o lance é mudar o nosso cenário e faze-lo crescer... a gente percebe uma efervescência em São Luís, Recife, Natal o lance é saber o que falta na nossa cena pra termos produções ao nível dessas capitais vizinhas. Mas acredito que uma coisa é certa: devemos começar pelas pessoas.

MC: Pra encerrar, indique duas ou mais bandas do Piauí para nós.


...e milhares de outros mais que iam dar duas páginas se postasse tudo aqui, obrigado!



Veja outras entrevistas:
→ Aline Lessa
→ Nosso Querido Figueiredo
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29 de junho de 2015

Entrevista: Nosso Querido Figueiredo

Recentemente o Nosso Querido Figueiredo, o Matheus Borges, lançou seu mais novo trabalho chamado "Eu Não Estou Em Sintonia" publicado aqui no blog. Ele cedeu gentilmente uma entrevista falando um pouco mais sobre o disco, segundo ele um de seus preferidos, sua música e referências bem como sua visão sobre a cena alternativa tupiniquim. Foram dez perguntas feitas e dez respostas sinceras que você pode ler logo abaixo.

MC - Olá Matheus tudo bem? Pra começar a entrevista porque esse nome curioso, Nosso Querido Figueiredo?

NQF - Não sei se existe uma razão para esse nome, eu não lembro direito pra falar a verdade. Existe uma história de origem, é claro. Tudo começou quando eu vi alguém se referir a outra pessoa como “nosso querido xxx” e pensei que seria engraçado se alguém já tivesse essa expressão de afeto no nome. Depois, eu fiquei algum tempo tentando encaixar sobrenomes em “nosso querido” e parei no Figueiredo. Não sei como, não tem a ver com o presidente da república.

MC - Você já lançou dezenas de discos desde 2008. Quando você começou era esse o objetivo: lançar muitos discos em tão pouco tempo? E alguns deles saiu em formato físico? 

NQF - Quando eu comecei, não tinha muitos planos. Gravei umas músicas em 2008, um EP chamado “Fugere Urbem”, porque queria expressar aquelas coisas. São canções de raiva e de tristeza. No ano seguinte, eu estava mexendo nuns softwares e gravei umas coisas. Virou o primeiro álbum, “Let It F”. Até 2010, mais ou menos, as gravações são meio toscas porque eu estava mais brincando do que tentando fazer alguma coisa. Aí eu gravei um EP chamado “Volume 2”, que tem esse nome justamente porque eu estava inaugurando uma fase nova. Gravei umas cópias em CD, dei aos meus amigos. Mas foi só isso.

MC - Com relação as inúmeras composições: como elas surgem e qual o cuidado que você tem para elas não soarem repetitivas?

NQF - Não tomo cuidado nenhum para elas não se tornarem repetitivas. São muitas composições, então acabo repetindo algumas coisas, principalmente palavras ou cenas. Mas isso é bom, porque essas palavras adquirem outras formas, outros significados dependendo do contexto.



MC - Em seu novo álbum você pareceu mais ambicioso e o release do seu disco afirmava isso ao dizer que você gostaria que as músicas fossem um hit em potencial. Isso significa, indiretamente, um busca por um reconhecimento/visibilidade maior?

NQF - São hits em potencial. Isso quer dizer que eu tentei me ater à forma tradicional de canção popular. Mais porque eu me interesso por isso do que para buscar um público mais amplo. Se as pessoas querem ouvir, elas ouvem. Essa é a graça da internet, qualquer coisa é um hit em potencial.

MC - Como surgiu o título do disco "Eu Não Estou Em Sintonia"? Sintonia com o que?

NQF - Esse título é meio que a síntese de uma sensação. Deslocamento, isolamento, alienação. Clausura. Também se refere ao conteúdo do álbum – são canções que você não vai ouvir ao sintonizar o rádio em qualquer estação.

MC - Outro dia, logo no lançamento de "Eu Não Estou Em Sintonia", você disse que esse era um dos seus preferidos. O que o torna diferente dos outros tantos discos que você lançou?

NQF - É um dos meus preferidos, sim. Demorei muito tempo para compor, para elaborar os arranjos, para pensar no álbum todo. Foi muito fácil de gravar as vozes, eu já tinha uma intimidade gigante com as faixas. Mais do que com quaisquer outras nesse momento de produção. E o resultado final me agradou muito. As faixas têm vida própria e, quando somadas, funcionam muito bem. Queria que o álbum soasse como alguma coisa gravada há trinta anos e redescoberta recentemente no porão de um colecionador. Que tivesse uma energia latente, três décadas de abandono que te atingem de uma só vez. Gravei umas vinte e poucas músicas, demorei até chegar ao número treze. Estou muito satisfeito.

MC - O post-punk e a new wave são suas essências que você usou bem nos últimos dois discos. Por que escolheu essa sonoridade? Pode citar algumas bandas que você usa como referência nesses estilos?

NQF - Eu sempre fico meio que transitando entre gêneros, uma coisa meio pastiche, etc. Mas eu sempre me vi muito mais próximo do pós-punk. Até porque esse termo implica, entre tantas coisas, a variedade absurda de estilos que surgiram depois do punk e que acabam sendo uma coisa só. Até pastiche. Porque existe música pós-punk psicodélica, barroca, minimalista, disco. Eu gosto de interpretar o pós-punk como se fosse o próprio movimento punk tentando entender outras expressões. O “Eu Não Estou Em Sintonia” foi influenciado muito por essa ideia. Mas os artistas que mais me influenciaram durante o processo não foram apenas os desse período. Ouvi bastante Wire, mas também Prince, Flaming Lips e Belchior.

MC - O cenário alternativo, underground, lado b, como queira chamar, da música brasileira é sempre um assunto recorrente e nesses últimos anos ele tem ganhado cada vez mais visibilidade. Se pensas igual, o que você acha que fez com que isso acontecesse?

NQF - Isso demonstra o interessa das pessoas – do público em consumir, da imprensa em noticiar, do artista em produzir. O público consome primeiro o que é mais fácil de achar. Consome a Banda do Mar. Daí aumenta o interesse, procura novas referências e acaba consumindo Rafael Castro, Jair Naves. Quanto mais interesse, mais fundo o cara vai, até chegar ao fundo mesmo, ao Figueiredo. A imprensa percebe esse interesse, acaba por noticiar mais coisas para suprir essa demanda. Os artistas se descobrem em um momento propício, com ferramentas democratizadas e baratas de produção. Podem enviar eles mesmos um e-mail para a Pitchfork. Tudo isso é favorável.

MC - Quais suas perspectivas para o futuro?

NQF - Ainda não sei. É a primeira vez que lanço algo novo sem ter o sucessor já em andamento. Muito curioso. Libertador, também.

MC - Pra encerrar, sugira um disco nacional e um internacional que tem a aprovação do Nosso Querido Figueiredo.

NQF - Vou me ater a coisas recentes. Entre os nacionais, preciso citar dois álbuns desse ano que me tocaram profundamente: “Fortaleza”, do Cidadão Instigado, e “Existe Alguém Aí?”, do Wander Wildner. Dos estrangeiros, o último do Sun Kil Moon, “Universal Themes”.



Outra entrevista:
- Aline Lessa (clique aqui)
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11 de maio de 2015

Entrevista: Aline Lessa

Nos últimos anos no cenário nacional tem aparecido novos e bons artistas que vem mantendo com seus discos a produtividade de uma safra que continua dando bons frutos. A lista de Melhores Discos Nacionais do ano passado foi um pequeno apurado disso que serviu para elencar numa ordem preferencial discos dignos de serem apreciados numa cena cada vez mais heterogênea e que se aprimora a cada disco lançado.

Esse ano já estamos chegando quase no final do primeiro semestre e temos muitos trabalhos nacionais publicados aqui no blog, part.1 e part.2, e dentre eles um dos meus preferidos, o disco solo da Aline Lessa (download). Daí, seguindo a sugestão do Marcos Xi, editor-chefe do Rock In Press, resolvi fazer a primeira entrevista do blog perguntado pra ela, ex tecladista da Tipo Uísque, sobre o disco, influências, visão do cenário atual quanto à projeção de novos artistas na mídia e perspectivas para o futuro. É isso! Abaixo você confere a entrevista completa.

Meus agradecimentos a Xi e Lessa! 

MC: Bem, é comum em entrevistas perguntar ao artista/banda que bandas ele gosta de ouvir. Sendo assim, quais suas bandas preferidas?

AL: Sou muito eclética e tenho uma certa dificuldade em dizer quais são as minhas bandas/artistas preferidos. Posso citar alguns daqueles que de alguma forma foram importantes na minha formação musical: The Beatles, Radiohead, Elliott Smith, Chico Buarque, Adriana Calcanhotto, dentre muitos outros! Mas penso que tudo o que ouvimos, queiramos ou não, acaba nos influenciando.

MC: A nova MPB, como muitos tem chamado os novos artistas desse meio, tem sido um campo fértil e que tem dado bons frutos ultimamente como Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, Tiê, Céu, Tiago Iorc, entre outros, com discos que lhes renderam merecidos elogios. O cenário no momento parece promissor pra você?

AL: Sem dúvidas. Andam dizendo por aí que a MPB não é mais a mesma, que a MPB morreu, que a MPB está fadada ao fracasso... E eu discordo. Acho que o que acontece hoje é que como qualquer pessoa pode se autodeclarar artista, gravar seu disco e divulgar sem precisar tanto das grandes mídias, o papel de seleção fica nas mãos do ouvinte e às vezes fica difícil chegar ao que é realmente bom em meio a uma oferta tão grande. Mas o que eu vejo hoje é muita gente talentosa fazendo coisa boa e - o que é mais legal - um público interessado em música de qualidade.

MC: A criação de um disco é um negócio bem particular de cada artista. O que te inspirou nas composições e em dar tom e voz ao seu primeiro disco, autointitulado? E que retorno você espera?

AL: Compor, pra mim, sempre foi muito mais uma necessidade do que uma vontade. As músicas desse meu primeiro disco retratam momentos diferentes da minha vida. Busco inspiração nas minhas próprias dores e escrevo pra expressar o que não consigo dizer de outra maneira. O retorno que eu esperava com esse lançamento era não mais do que o que eu já venho recebendo: Pessoas escutando, se identificando e se emocionando com o trabalho.

MC: Disponibilizar um disco pra download gratuito e compartilhar nas redes sociais, sem falar nos blogs que publicam o material, tem sido um meio eficaz para divulgação de um trabalho, porém o CD físico acaba sendo dispensado por alguns que optam apenas pelo formato digital. Há uma dificuldade nisso? O acesso ao download gratuito e streaming de música tem uma influência negativa quanto as pessoas comprarem o disco ou a cultura de comprá-los está desaparecendo cada vez mais? E melhor, irás lançar seu disco em CD e vinil?

AL: Eu particularmente já entendi e aceitei que lucrar com a venda de CDs, DVDs e vinis hoje em dia é pra poucos, ainda mais quando se trata de um artista novo. Eu gosto muito da ideia de facilitar o acesso à arte - e o streaming me parece a forma mais eficaz e direta de se chegar ao público. Pretendo fazer uma tiragem mínima do álbum físico, com um material gráfico diferenciado, muito mais para ver a obra concretizada e palpável que para tentar capitalizar em cima de vendas.


MC: No seu álbum, gostei muito da faixa "Para Luciana" parece uma cantiga de ninar para adultos (risos). Os arranjos dele são belíssimos e traduzem uma espécie de melancolia sofisticada bem retratada também na capa do disco. Como você o descreveria?

AL: Cada música teve um processo particular de arranjo. Em "Para Luciana", por exemplo, o Elisio (Freitas - que produziu o álbum comigo) concebeu o arranjo e gravou todos os instrumentos. Em várias outras faixas pensamos os arranjos juntos, gravando a maior parte dos instrumentos. Quando havia necessidade, convidávamos eventuais participações. É difícil descrever ou classificar um disco que traz tantas influências diferentes; por isso não me incomoda o termo - hoje tão polêmico - MPB.

MC: A MPB é a essência principal do disco e você parece flutuar em Lábia, mas é possível sentir o rock sutil marcar as melodias de Manhã, Meu Bem e Por Fim o que enriquece a obra. O rock é outra parte essencial pra você?

AL: O Rock foi o estilo de música que mais escutei na minha adolescência (quando digo Rock, incluo as mais variadas subclassificações do estilo). Hoje tenho escutado também outros estilos de música, o que não inclui apenas MPB. Costumo brincar dizendo que a rebeldia do Rock me coube muito bem na adolescência, mas chegou um momento em que eu percebi que gritar talvez não seja a melhor maneira de se fazer ouvir (risos). Mas é natural que tudo que eu faça traga alguma influência de rock, o que pra mim é muito positivo. 

MC: Hoje a mídia televisiva tem procurado por meio de vários programas novos artistas que tenham um alcance nacional e o tempo tem mostrado que o sucesso das bandas vencedoras é efêmero. Como você encara esses programas e a chance de bandas independentes do cenário brasileiro ganharem uma repercussão maior, quem sabe, ganhando o programa?

AL: Eu não tenho dúvida de que esses programas são ótimas vitrines para que uma banda mostre seu trabalho ao grande público. Acredito que o que determina se o sucesso da banda será duradouro ou efêmero é a própria qualidade do trabalho aliada a muita dedicação após a exposição. Em contrapartida, é latente a tendência de tais programas em colocar em posição de destaque artistas pouco distintos e que não tragam nenhuma ameaça aos padrões estético-musicais previamente determinados pela própria indústria de massa, já que ela é responsável inclusive por tais programas. É natural que, para que haja outras edições desses programas, as bandas que se destacaram antes não se mantenham relevantes no panorama, para que possam ser rapidamente substituídas. 

MC: Apesar de ter lançado seu primeiro agora, já tens alguma perspectiva pro futuro?

AL: Sim. Eu não consigo parar de produzir, fico ansiosa (risos). Já estou pensando nos primeiros clipes, nos primeiros shows e até no próximo disco.

MC: Por último, se tivesse que indicar dois discos para nós quais seriam? 

AL: Eu indico o Careless Love, da Madeleine Peyroux e o XO, do Elliott Smith. Os dois discos, apesar de muito diferentes em questão de produção, são intensos e sutis ao mesmo tempo, o que me cativa muito.

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